Água
- Vitor Costa

- 7 de mai.
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Atualizado: há 3 dias
Apontar a água como verbete neste glossário parte da condição, adotada pelas abordagens críticas ao desenvolvimento, de que a Natureza é capaz de se articular enquanto ente ontológico e epistemológico da política e, por consequência questionar fundamentos tradicionais que assumem uma posição objetificante e utilitarista dos bens da Natureza, o que possibilita a apropriação, acumulação e destruição destes bens.
O entendimento da água enquanto recurso natural costuma derivar de uma percepção comum tida como hegemônica tanto no pensamento econômico, quanto no pensamento político, de que os bens da Natureza representam dádivas. A ideia de dádiva da natureza presume que estes bens estão despidos de valor por serem ofertados pela Natureza sem a necessidade de retribuição e recompensa pela sua existência, possibilidades de uso e retorno em relação ao valor em potencial que se pode obter através do bem. Esta percepção presume que não há riqueza contida na Natureza e se fundamenta na divisão entre Natureza e Cultura para fundamentar a ideia de que para produzir riqueza e constituir valor é necessária a intervenção humana e transformação do bem em algo que difira da sua forma original.
Esta forma de percepção sobre os bens da Natureza legitimam as noções tradicionais de propriedade que viabilizam práticas de apropriação e acumulação em detrimento do comum e das formas sociais coletivas. Ao questionar essa abordagem, o conceito de extrativismo da água postula que a apropriação e acumulação de direitos individuais sobre grandes volumes de água, que permitem o seu manejo, deslocamento e direcionamento para cadeias de acumulação de capital assume a água como recurso a ser extraído, valorizado e privatizado. A acumulação de direitos sobre a água permite que indivíduos ou corporações assumam o controle dos corpos d’água, restringindo ou interrompendo o acesso e uso da água por diferentes povos, rurais e urbanos.
Na ecologia política, esta restrição permite mostrar um elemento fundamental da água para uma leitura crítica dos projetos de desenvolvimento: sua capacidade enquanto ente politicamente instituinte. A partir da crítica ecológica, o que se percebe é que as organizações em sociedades de diferentes povos se deram pela proximidade a corpos d’água e que a capacidade de interação com a água possibilitava diferentes atividades que os constituía enquanto sociedade. A ação da água sobre os ecossistemas viabilizava tanto a formação de sociedades, mas a produção de diferentes tipos de riqueza, com ênfase no valor de uso e na funcionalidade comunal que estava estabelecida.
Deste modo, abordar criticamente o desenvolvimento demanda olhar para as formas do manejo e uso da água, percebendo as formas de instituição e destituição de direitos sobre a água em relação aos diferentes atores identificados no projeto.

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