top of page
Logo Abordagens Críticas ao Desenvolvimento ACD rede

Riqueza

Foto do escritor: Paulo Chamon
Paulo Chamon
4 de set.
4 min de leitura

Países desenvolvidos são países ricos. Países subdesenvolvidos—também chamados de pobres—podem possuir riquezas naturais. Um país que se desenvolve expande sua riqueza—e talvez também a distribui. Países podem enriquecer sem se tornarem desenvolvidos. Pessoas podem enriquecer sem que seu país se torne rico. Tanto o vocabulário do desenvolvimento quanto o senso comum apoiam-se na ideia de “riqueza”. Mas o que é riqueza? O que torna um país rico? Qual a relação entre riqueza e desenvolvimento?


Essas perguntas não são novas: elas animaram o nascimento do pensamento econômico desde o imperialismo do século XVII. Nessa época, o influxo de metais preciosos para o continente europeu—fruto do saque dos territórios e povos americanos—inaugurou uma nova questão. Observadores espanhóis e ingleses notaram que o aumento da prata e do ouro em seus países era acompanhada de uma inflação que levava à fuga de moeda e dissipava suas riquezas. Tinha início a diferenciação entre moeda e riqueza—tarefa que encontra sua expressão mais icônica na obra de Adam Smith A Riqueza das Nações: enquanto o primeiro faz referência aos metais preciosos utilizados como medida de valor, o segundo tenta abarcar algo mais amplo que inclui também bens, terras, recursos naturais, produtividade, e uma forma de organização social. David P. Levine encontra, nesse início do pensamento econômico, a semente de uma concepção social e cultural de riqueza que será plenamente desenvolvida apenas bem mais tarde.


Com efeito, riqueza foi e continua sendo pensada em termos quantitativos: ser rico é uma questão de quantidade de dinheiro, bens ou capital. Mais especificamente, ser rico é possuir mais do que “o necessário”, é ter acesso a certo excedente, a luxo. Medir riqueza não é fácil, mas riqueza é uma questão de mensuração: quem tem mais que quem ou, ainda, quem possui certo patamar de excedente. Quando esses termos são transferidos para o desenvolvimento, ele se torna crescimento econômico.


Essa concepção quantitativa de riqueza informa um dos mais importantes debates atuais dos estudos críticos de desenvolvimento: abundância versus decrescimento. Por um lado, defensores da abundância afirmam que a escassez existente é uma criação artificial e apostam em avanços tecnológicos e transformações políticas para criar um mundo de abundância. Já o ideário do decrescimento advoga que o imperativo de crescimento sem fim está destruindo o planeta, seu combate sendo uma tarefa política fundamental. Em outras palavras, enquanto uma posição aposta na expansão quantitativa da riqueza como capaz de mudar qualitativamente a sociedade, a outra propõe substituir o crescimento quantitativo pelo uso eficiente da riqueza já existente. Para uma ainda precisamos produzir mais riqueza; para a outra a quantidade de riqueza é suficiente, precisamos maximizar eficiência de uso e distribuição.


É essa concepção quantitativa que é negada por abordagens como a de Levine que entendem a riqueza como uma forma singular de organizar a vida social e material. Nessa concepção qualitativa, riqueza diz respeito à organização da sociedade voltada à negação da subsistência, ou seja, à negação de necessidades humanas fixadas por parâmetros naturais ou tradicionais. Para ser mais específico, riqueza é uma forma de organizar a vida baseada na expansão das necessidades humanas e dos meios para satisfazê-las sem pré-determinar quais são essas necessidades e esses meios. Em suma, “riqueza” sinaliza uma transformação no tipo de necessidades humanas: multiplicáveis e autodeterminadas ao invés de limitadas e determinadas externamente. Ao mesmo tempo, como leituras críticas indicam, essa forma de organização social é sistematicamente constituída em contraposição hierárquica a culturas denominadas de “primitivas” ou “tradicionais”.


A forma como as sociedades definem, acumulam e distribuem riquezas, ou como estas sociedades definem e alcançam suas necessidades acaba por ser a história do pensamento econômico. Mas é apenas no capitalismo que a riqueza tem uma definição adicional: a riqueza não encontra apenas as necessidades, mas as expande - ela indica como satisfazemos o que precisamos hoje e expandem os horizontes do nas novas necessidades do amanhã. A razão pela qual a riqueza das sociedades capitalis “se apresenta como uma ‘imensa acumulação de mercadorias’” para Marx, é precisamente por ser resultante desta caraterística de uma expansão infinda que constitui a riqueza no capitalismo.


No capitalismo global, riqueza nos dá o que precisamos e inventa novos bens e serviços para que nós venhamos a precisar deles - por isso um expansionismo sem limites. Este caráter expansionista da riqueza no capitalismo significa que as economias capitalistas são, por definição, economias sob um desenvolvimento constante e sem fim.


Essa concepção de riqueza é fundamental para as abordagens críticas ao desenvolvimento porque redireciona o debate de uma questão de quantidade para uma discussão sobre como relacionar diferentes formas de organizar formas de viver em sociedade. De um debate quantitativo e diretamente econômico, passa-se a um debate qualitativo sobre formas de vida e relacionalidades que inclui a questão do suprimento das necessidades humanas, mas parte do questionamento sobre a sua constituição social. A trajetória do conceito de riqueza de quantidade de moeda, bens, capital e produtividade para uma forma de organização social e cultural denota essa ampliação do debate também no campo do desenvolvimento.


Referências:


Bastani, Aaron. Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado. Autonomia Literária, 2025.


Blaney, David; Inayatullah, Naeem. Savage Economics. Wealth, Poverty, and the temporal walls of capitalism. London and New York: Routledge, 2010


Cava, Bruno; Cocco, Giuseppe. A vida da moeda: crédito, imagens, confiança. Mauad X, 2020.


Kapoor, Ilan. The Postcolonial Politics of Development. Routledge, 2008.


Klein, Ezra; Thompson, Derek. Abundance. Avid Reader Press / Simon & Schuster, 2025.


Levine, David P. Wealth and Freedom. An introduction to political theory. Cambridge: CUP, 1995


______. Economic Studies. Contributions to the Critique of Economic Theory. Routledge, 1977

Meadows, Denis; Randers, Jorgen; Meadows, Donella H. Os Limites do Crescimento. A atualização de 30 anos. Qualitymark, 2007.


Sahlins, Marshall. Stone Age Economics. Aldine-Atherton, 1972.


Saito, Kohei. Slow Down: The Degrowth Manifesto. Astra House, 2024.


Smith, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Vide Editorial, 2023


Suprinyak, Carlos Eduardo. Moeda, Tesouro e Riqueza: uma anatomia conceitual do mercantilismo britânico do início do século 17. Estudos econômicos, v.39, n.3, p.571-596, 2009


Suther, Jensen. Radical Eudaimonism. The Point Magazine, n.36, 1 fev. 2026. Disponível em : https://thepointmag.com/politics/radical-eudaimonism

Posts recentes

Ver tudo
Segurança

As Abordagens Críticas ao Desenvolvimento têm, em suas variadas formas, confrontado a centralidade do crescimento econômico em concepções tradicionais de “desenvolvimento”, chamando atenção para aspec

 
 
 
Riqueza

Wealth is the means by which a society meets the needs of its members. Needs are socio-culturally unique to the history of the society in question, but can be summarized as needs for esteem, autonomy,

 
 
 
Labor

Labor is how human beings change and shape nature. For John Locke, the mixing of labor with the earth is the key to justifying private property (Locke 1980; Vaughn 1978). For Classical and Marxist Pol

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page