Riqueza
- Paulo Chamon

- 24 de jul.
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Países desenvolvidos são países ricos. Países subdesenvolvidos—também chamados de pobres—podem possuir riquezas naturais. Um país que se desenvolve expande sua riqueza—e talvez também a distribui. Países podem enriquecer sem se tornarem desenvolvidos. Pessoas podem enriquecer sem que seu país se torne rico. Tanto o vocabulário do desenvolvimento quanto o senso comum apoiam-se na ideia de “riqueza”. Mas o que é riqueza? O que torna um país rico? Qual a relação entre riqueza e desenvolvimento?
Essas perguntas não são novas: elas animaram o nascimento do pensamento econômico desde o imperialismo do século XVII. Nessa época, o influxo de metais preciosos para o continente europeu—fruto do saque dos territórios e povos americanos—inaugurou uma nova questão. Observadores espanhóis e ingleses notaram que o aumento da prata e do ouro em seus países era acompanhada de uma inflação que levava à fuga de moeda e dissipava suas riquezas. Tinha início a diferenciação entre moeda e riqueza—tarefa que encontra sua expressão mais icônica na obra de Adam Smith A Riqueza das Nações: enquanto o primeiro faz referência aos metais preciosos utilizados como medida de valor, o segundo tenta abarcar algo mais amplo que inclui também bens, terras, recursos naturais, produtividade, e uma forma de organização social. David P. Levine encontra, nesse início do pensamento econômico, a semente de uma concepção social e cultural de riqueza que será plenamente desenvolvida apenas bem mais tarde.
Com efeito, riqueza foi e continua sendo pensada em termos quantitativos: ser rico é uma questão de quantidade de dinheiro, bens ou capital. Mais especificamente, ser rico é possuir mais do que “o necessário”, é ter acesso a certo excedente, a luxo. Medir riqueza não é fácil, mas riqueza é uma questão de mensuração: quem tem mais que quem ou, ainda, quem possui certo patamar de excedente. Quando esses termos são transferidos para o desenvolvimento, ele se torna crescimento econômico.
Essa concepção quantitativa de riqueza informa um dos mais importantes debates atuais dos estudos críticos de desenvolvimento: abundância versus decrescimento. Por um lado, defensores da abundância afirmam que a escassez existente é uma criação artificial e apostam em avanços tecnológicos e transformações políticas para criar um mundo de abundância. Já o ideário do decrescimento advoga que o imperativo de crescimento sem fim está destruindo o planeta, seu combate sendo uma tarefa política fundamental. Em outras palavras, enquanto uma posição aposta na expansão quantitativa da riqueza como capaz de mudar qualitativamente a sociedade, a outra propõe substituir o crescimento quantitativo pelo uso eficiente da riqueza já existente. Para uma ainda precisamos produzir mais riqueza; para a outra a quantidade de riqueza é suficiente, precisamos maximizar eficiência de uso e distribuição.
É essa concepção quantitativa que é negada por abordagens como a de Levine que entendem a riqueza como uma forma singular de organizar a vida social e material. Nessa concepção qualitativa, riqueza diz respeito à organização da sociedade voltada à negação da subsistência, ou seja, à negação de necessidades humanas fixadas por parâmetros naturais ou tradicionais. Para ser mais específico, riqueza é uma forma de organizar a vida baseada na expansão das necessidades humanas e dos meios para satisfazê-las sem pré-determinar quais são essas necessidades e esses meios. Em suma, “riqueza” sinaliza uma transformação no tipo de necessidades humanas: multiplicáveis e autodeterminadas ao invés de limitadas e determinadas externamente. Ao mesmo tempo, como leituras críticas indicam, essa forma de organização social é sistematicamente constituída em contraposição hierárquica a culturas denominadas de “primitivas” ou “tradicionais”.
A forma como as sociedades definem, acumulam e distribuem riquezas, ou como estas sociedades definem e alcançam suas necessidades acaba por ser a história do pensamento econômico. Mas é apenas no capitalismo que a riqueza tem uma definição adicional: a riqueza não encontra apenas as necessidades, mas as expande - ela indica como satisfazemos o que precisamos hoje e expandem os horizontes do nas novas necessidades do amanhã. A razão pela qual a riqueza das sociedades capitalis “se apresenta como uma ‘imensa acumulação de mercadorias’” para Marx, é precisamente por ser resultante desta caraterística de uma expansão infinda que constitui a riqueza no capitalismo. No capitalismo global, riqueza nos dá o que precisamos e inventa novos bens e serviços para que nós venhamos a precisar deles - por isso um expansionismo sem limites. Este caráter expansionista da riqueza no capitalismo significa que as economias capitalistas são, por definição, economias sob um desenvolvimento constante e sem fim.
Essa concepção de riqueza é fundamental para as abordagens críticas ao desenvolvimento porque redireciona o debate de uma questão de quantidade para uma discussão sobre como relacionar diferentes formas de organizar formas de viver em sociedade. De um debate quantitativo e diretamente econômico, passa-se a um debate qualitativo sobre formas de vida e relacionalidades que inclui a questão do suprimento das necessidades humanas, mas parte do questionamento sobre a sua constituição social. A trajetória do conceito de riqueza de quantidade de moeda, bens, capital e produtividade para uma forma de organização social e cultural denota essa ampliação do debate também no campo do desenvolvimento.
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