Abordagens Feministas
- Rica Prata

- 7 de mai.
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Atualizado: 24 de jul.
As abordagens feministas se definem por um conjunto de perspectivas teórico-políticas que trabalham elementos analíticos, empíricos e normativos em torno do debate sobre gênero como categoria central. Ao investigarem as desigualdades de gênero, a sub-representação de mulheres no cotidiano social, os vieses analíticos que estabelecem o masculino como norma e os processos de mudança política, as abordagens feministas se estabelecem como campo plural e em movimento. Destacam-se, por exemplo, o feminismo liberal com seu enfoque na autonomia e liberdades, muitas vezes, mediadas pela lógica de mercado; o feminismo radical¹ e sua preocupação com a opressão, relações de dominação e o patriarcado; o feminismo marxista trazendo questões sobre as relações de trabalho através da reprodução social; o feminismo pós-colonial evidenciando a exploração colonial e o imperialismo ocidental; e o feminismo pós-estrutural desvelando a essencialização das identidades e suas ligações com o poder e o conhecimento (TRUE, 2005).
Os feminismos, frequentemente, questionam a neutralidade das políticas econômicas entendendo que determinados sujeitos são mais marginalizados dentro da lógica capitalista de progresso. A divisão entre público e privado, ancorada no binarismo natureza/cultura (HARAWAY, 2004), relega a mulher e corpos dissidentes de gênero a trabalhos compulsórios e/ou não remunerados que são o sustento de toda economia formal. Esta última se estabelece por meio do núcleo familiar, em primeiro lugar, fomentando políticas econômicas de cuidado baseadas em exploração (OKIN, 2008). Nesse sentido, a ideia do feminismo interseccional busca apontar as desigualdades vividas na confluência de dois ou mais marcadores sociais evidenciando percepções de gênero, de raça e de classe, mas abrindo debate para orientação sexual, nacionalidade, deficiências, território e outras categorias identitárias. A interseccionalidade vai na contramão da cristalização de grupos sociais reconhecendo a diversidade de experiências e as consequências disso no desenvolvimento de diferentes populações (COLLINS; BILGE, 2020; CRENSHAW, 1989).
Ao debater sobre a universalidade dos discursos econômicos e da divisão do trabalho via projeto colonial, o feminismo pós-colonial de Mohanty (1984) chama atenção para a construção de um imaginário sobre as mulheres do Terceiro Mundo, o qual é pontuado pela lógica da pobreza, da ignorância e da desarticulação social. O uso de termos como “Terceiro Mundo” propriamente e “subdesenvolvida” representam bem a lógica colonial de subordinação e universalização do que se entende por desenvolvimento. O colonialismo e a racionalidade ocidental em torno do crescimento econômico esvaziam culturas locais e contextos históricos de modo a generalizar experiências e fundamentar a ideia de “vítima” sem possibilidade de agência. As abordagens feministas, no entanto, têm se debruçado também sobre essa pretensa impossibilidade, em que a ideia tradicional de desenvolvimento é repensada a partir dos conceitos de justiça social, bem-estar, sustentabilidade e conhecimentos tradicionais. Perspectivas como o ecofeminismo subvertem o desenvolvimentismo ocidental redimensionando-o como insustentável, já que conectam a dominação de gênero às estruturas coloniais e capitalistas, as quais são as responsáveis pela destruição do meio ambiente e pela desvalorização de práticas de cuidado com a terra (MIES; SHIVA, 2014). É por meio de pontos de vista multidimensionais que as abordagens feministas se tornam importantes ferramentas para repensar as diferentes visões sobre o desenvolvimento, oferecendo reflexões críticas e abertura para mudanças sociais.
¹ A tradição do feminismo radical das décadas de 1970 e 1980 em referência neste texto não é intercambiável com os feminismos trans-excludentes das últimas décadas, os quais aplicam uma visão biologizante de gênero e reproduzem exclusões que são efeitos do próprio patriarcado como estrutura social.
COLLINS, Patricia Hill; BILGE, Sirma. Intersectionality. 2. ed. Cambridge: Polity Press, 2020.
CRENSHAW, Kimberle. Demarginalizing Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics, University of Chicago Legal Forum, Vol. 1989, Is. 1, Art. 8.
HARAWAY, Donna. Gênero para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. Cadernos Pagu, Campinas, n. 22, p. 201–246, 2004.
MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminism. London: Zed Books, 2014.
MOHANTY, Chandra Talpade. Under Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses. boundary 2, v. 12, n. 3, p. 333–358, 1984.
OKIN, Susan Moller. Gênero, o público e o privado. Estudos Feministas, v. 16, n. 2, p. 306-332, 2008.
TRUE, Jacqui. Feminism. In: BURCHILL, Scott et al (eds). Theories of International Relations. Palgrave Macmillan, 2005.

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