top of page
Logo Abordagens Críticas ao Desenvolvimento ACD rede

Abordagens Feministas

Foto do escritor: Rica Prata
Rica Prata
3 de set.
3 min de leitura

As abordagens feministas se definem por um conjunto de perspectivas teórico-políticas que trabalham elementos analíticos, empíricos e normativos em torno do debate sobre gênero como categoria central. Ao investigarem as desigualdades de gênero, a sub-representação de mulheres no cotidiano social, os vieses analíticos que estabelecem o masculino como norma e os processos de mudança política, as abordagens feministas se estabelecem como campo plural e em movimento. Destacam-se, por exemplo, o feminismo liberal com seu enfoque na autonomia e liberdades, muitas vezes, mediadas pela lógica de mercado; o feminismo radical e sua preocupação com a opressão, relações de dominação e o patriarcado; o feminismo marxista trazendo questões sobre as relações de trabalho através da reprodução social; o feminismo pós-colonial evidenciando a exploração colonial e o imperialismo ocidental; e o feminismo pós-estrutural desvelando a essencialização das identidades e suas ligações com o poder e o conhecimento (TRUE, 2005).


Os feminismos, frequentemente, questionam a neutralidade das políticas econômicas entendendo que determinados sujeitos são mais marginalizados dentro da lógica capitalista de progresso. A divisão entre público e privado, ancorada no binarismo natureza/cultura (HARAWAY, 2004), relega a mulher e corpos dissidentes de gênero a trabalhos compulsórios e/ou não remunerados que são o sustento de toda economia formal. Esta última se estabelece por meio do núcleo familiar, em primeiro lugar, fomentando políticas econômicas de cuidado baseadas em exploração (OKIN, 2008). Nesse sentido, a ideia do feminismo interseccional busca apontar as desigualdades vividas na confluência de dois ou mais marcadores sociais evidenciando percepções de gênero, de raça e de classe, mas abrindo debate para orientação sexual, nacionalidade, deficiências, território e outras categorias identitárias. A interseccionalidade vai na contramão da cristalização de grupos sociais reconhecendo a diversidade de experiências e as consequências disso no desenvolvimento de diferentes populações (COLLINS; BILGE, 2020; CRENSHAW, 1989).


Ao debater sobre a universalidade dos discursos econômicos e da divisão do trabalho via projeto colonial, o feminismo pós-colonial de Mohanty (1984) chama atenção para a construção de um imaginário sobre as mulheres do Terceiro Mundo, o qual é pontuado pela lógica da pobreza, da ignorância e da desarticulação social. O uso de termos como “Terceiro Mundo” propriamente e “subdesenvolvida” representam bem a lógica colonial de subordinação e universalização do que se entende por desenvolvimento. O colonialismo e a racionalidade ocidental em torno do crescimento econômico esvaziam culturas locais e contextos históricos de modo a generalizar experiências e fundamentar a ideia de “vítima” sem possibilidade de agência. As abordagens feministas, no entanto, têm se debruçado também sobre essa pretensa impossibilidade, em que a ideia tradicional de desenvolvimento é repensada a partir dos conceitos de justiça social, bem-estar, sustentabilidade e conhecimentos tradicionais. Perspectivas como o ecofeminismo subvertem o desenvolvimentismo ocidental redimensionando-o como insustentável, já que conectam a dominação de gênero às estruturas coloniais e capitalistas, as quais são as responsáveis pela destruição do meio ambiente e pela desvalorização de práticas de cuidado com a terra (MIES; SHIVA, 2014). É por meio de pontos de vista multidimensionais que as abordagens feministas se tornam importantes ferramentas para repensar as diferentes visões sobre o desenvolvimento, oferecendo reflexões críticas e abertura para mudanças sociais.


Referências:


COLLINS, Patricia Hill; BILGE, Sirma. Intersectionality. 2. ed. Cambridge: Polity Press, 2020.


CRENSHAW, Kimberle. Demarginalizing Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics, University of Chicago Legal Forum, Vol. 1989, Is. 1, Art. 8.


HARAWAY, Donna. Gênero para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. Cadernos Pagu, Campinas, n. 22, p. 201–246, 2004.


MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminism. London: Zed Books, 2014.


MOHANTY, Chandra Talpade. Under Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses. boundary 2, v. 12, n. 3, p. 333–358, 1984.


OKIN, Susan Moller. Gênero, o público e o privado. Estudos Feministas, v. 16, n. 2, p. 306-332, 2008. 


TRUE, Jacqui. Feminism. In: BURCHILL, Scott et al (eds). Theories of International Relations. Palgrave Macmillan, 2005. 

Posts recentes

Ver tudo
Direito à Consulta Livre Prévia e Informada

Versão reduzida 1 O direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI)¹ constitui um dos principais marcos do direito internacional contemporâneo na redefinição das relações entre Estados, povos indí

 
 
 
Abordagens Críticas ao Desenvolvimento

As abordagens críticas ao desenvolvimento, de modo geral, são aquelas que questionam o modelo de desenvolvimento hegemônico vigente e que incorpora certos pressupostos modernos ocidentais daquilo que

 
 
 
Colapso Climático

O colapso climático é uma definição sobre a crise climática que compreende os efeitos de esgotamento ecológico representado pelo alcance ou proximidade aos pontos de não retorno¹ do planeta. Para ente

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page