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Antropoceno

Nathália Macedo
3 de set.
2 min de leitura

“Antropoceno” designa a era geológica em que a ação humana passa a exercer primazia sobre as transformações ecológicas que, até então, moldavam o planeta a partir de características naturais. Proposto na década de 2000, por Paul J. Crutzen e Eugene Stroerme, numa conferência científica, o conceito questionava o uso contínuo de Holoceno¹, era geológica subsequente à era do gelo (Crutzen; Stroemer, 2000). Com o tempo, porém, surgiram críticas quanto às implicações políticas do Antropoceno; por exemplo, apesar da contribuição de Crutzen, o Antropoceno pode funcionar como uma abstração que dilui responsabilidades historicamente situadas, ocultando desigualdades estruturais sob a figura de um humano universal e indistinto.


Para Malcom Ferdinand (2022), esse humano abstrato é a máscara de uma modernidade colonial que reduz a alteridade à extensão do sujeito europeu moderno, por meio de uma violência de mesmificação. Em outras palavras, trata-se de um processo em que o outro passa a ser assimilado aos padrões do sujeito europeu, como se só houvesse uma forma legítima de existir no mundo. No porão dessa modernidade, populações pretas e povos originários experimentam processos de nadificação, nos quais suas existências são negadas para sustentar a hegemonia de quem se proclama o único habitante legítimo da Terra. Dessa forma, o Antropoceno, quando desprovido de historicidade, tende a ocultar processos os quais produziram a crise ecológica. Nesse sentido, categorias como Plantationoceno e o Colonialoceno, ambas propostas de Ferdinand (2022), não negam o Antropoceno, mas buscam situá-lo historicamente, evidenciando o papel da escravização, do genocídio indígena, da colonialização e da apropriação de territórios na transformação da Terra em monocultura e de corpos em força de acumulação. O porão do navio negreiro, como lembra Ferdinand (2022), expressa um modo de relação com o mundo baseado na hierarquização da vida.

Essa crítica se aproxima da perspectiva de Jason W. Moore (2017), para quem a crise climática não decorre da humanidade em abstrato, mas sim do regime histórico específico de produção e poder, o capitalismo. Disto surge a noção de Capitaloceno. As relações de acumulação capitalista,longe de se limitarem à esfera econômica, reorganizam a própria teia da vida ao converter territórios, corpos e ecossistemas em insumos baratos e descartáveis. Sob esse viés, a devastação contemporânea resulta dessas formas de organização da produção e da apropriação da natureza, cujos efeitos se projetam em escala planetária, contribuindo para as transformações que passam a caracterizar o próprio Antropoceno, na medida em que a expansão da acumulação reconfigura até mesmo sistemas biofísicos.


O Antropoceno deve, assim, ser compreendido como conceito em disputa. Mais do que designação geológica, ele constitui um campo de tensão que envolve a semântica, critérios científicos, responsabilidade histórica e práticas sociais que produzem efeitos materiais sobre o sistema terrestre. Reinterpretá-lo é, portanto, tarefa de descolonização conceitual e de reinvenção do comum planetário.


¹ Refere-se à época geológica marcada pela relativa estabilidade climática que possibilitou o desenvolvimento das civilizações humanas. Sobre seus limites, ver Dipesh Chakrabarty em “The Climate of History: Four Theses”.


Referências:


Crutzen, Paul J.; Stoerme, Eugene F. The “Anthropocene”. Global Change Newsletter, n. 41 (may), p. 17–18, 2000.


Ferdinand, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Tradução de Letícia Mei. São Paulo: Ubu Editora, 2022


Moore, Jason W. The Capitalocene, Part I: on the nature and origins of our ecological crisis. The Journal of Peasant Studies, 2017.


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