Bem Viver
Movimento construído sob uma concepção ética, política e civilizatória originada de cosmovisões indígenas andinas, que propõe uma forma de organização da vida baseada na coletividade, na reciprocidade e na harmonia entre seres humanos e natureza. Originado especialmente nos conceitos de Sumak Kawsay, em quíchua, e Suma Qamaña, em aimará, o bem viver propõe uma forma de organização da vida baseada na coletividade, na reciprocidade e na harmonia entre seres humanos e natureza (ACOSTA, 2016; DELGADO, 2014). Trata-se de uma perspectiva na qual a vida não é compreendida de forma individualizada, mas como parte de um tecido relacional que envolve comunidade, território, ancestralidade e natureza, entendidos como dimensões inseparáveis da existência. Nessa concepção, viver bem não significa acumular bens ou alcançar padrões de consumo elevados, mas manter relações equilibradas entre as pessoas, com o ambiente e com as gerações passadas, presentes e futuras (ACOSTA, 2016). Diferentemente da noção ocidental de desenvolvimento, historicamente associada ao crescimento econômico, à produtividade e ao domínio da natureza, o bem viver propõe outro horizonte civilizatório, no qual o centro da organização social está na reprodução da vida e no cuidado com tudo o que a sustenta; o valor da coletividade, da solidariedade e da responsabilidade compartilhada ocupa lugar fundamental, assim como o reconhecimento de que o ser humano não está acima da natureza, mas faz parte dela (GUDYNAS, 2011). Nessa perspectiva, a ideia de progresso é substituída pela busca de equilíbrio, sustentabilidade e justiça, entendidas como condições para a continuidade da vida em comum. Essa concepção tem sido mobilizada na América Latina como referência crítica aos modelos de desenvolvimento que produziram desigualdades sociais, destruição ambiental e invisibilização de povos e saberes tradicionais. Ao afirmar a legitimidade de outras formas de viver, conhecer e organizar a sociedade, o bem viver contribui para questionar a universalização de valores ocidentais e para fortalecer projetos políticos comprometidos com a pluralidade cultural e com a defesa dos territórios. No Brasil, o conceito vem sendo incorporado em debates sobre saúde coletiva, justiça ambiental e direitos de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Assim, o bem viver se afirma como um princípio ético e político que orienta práticas de cuidado, formas de resistência e a construção de alternativas ao modelo de desenvolvimento dominante, colocando a dignidade, a interdependência e a continuidade da vida no centro da organização social.
Referências:
ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Elefante, 2026.
DELGADO, Ana Carolina Teixeira. Suma Qamaña como estratégia de poder: politizando o Pluriverso. Carta Internacional, v. 13, n. 3, 2018. Disponível em: https://www.cartainternacional.abri.org.br/Carta/article/view/818/401. Acesso em: 15 abr. 2026.
GUDYNAS, Eduardo. Buen vivir: germinando alternativas al desarrollo. América Latina en Movimiento, Quito, n. 462, p. 1-20, 2011. Disponível em: https://www.gudynas.com/publicaciones/articulos/GudynasBuenVivirGerminandoALAI1 1.pdf. Acesso em: 14 abr. 2026.

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