Capitalismo
- Paulo Chamon

- 7 de mai.
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Atualizado: 24 de jul.
Desde o século XVIII, autores como Adam Smith, David Ricardo e muitos de seus herdeiros, entendem o desenvolvimento como algo natural e desejável. Natural devido à propensão humana à barganha e ao progresso. Desejável por permitir um avanço inédito na produtividade, reduzindo a exposição humana à natureza e à pobreza.
Enquanto conceito crítico, “capitalismo” serviu historicamente para revelar que, ao invés de ser natural, o desenvolvimento é parte de uma estrutura social e econômica específica. E que, apesar de aumentar a produtividade social, a estrutura capitalista é baseada na reprodução de desigualdade, pobreza e dominação.
O mais famoso crítico do capitalismo foi Karl Marx. Para ele, o capitalismo é um sistema definido (i) pela propriedade privada dos meios de produção, (ii) pela divisão da sociedade entre a classe capitalista e a classe proletária, e (iii) pela necessidade objetiva de expansão do valor. Em sua formulação mais famosa, Marx mostra como o desenvolvimento é capitalista e, logo, baseado em exploração, dominação e alienação, ou seja, na apropriação pela classe capitalista do valor produzido pela classe proletária; no monopólio da classe capitalista do poder político de decidir sobre o tempo da classe trabalhadora e sobre o excedente produzido pela sociedade; e na separação das pessoas daquilo que elas produzem, do processo de produção, umas das outras, e de si mesmas.
Após Marx, a crítica ao capitalismo revelou outros processos inseparáveis do desenvolvimento econômico. Abordagens marxistas do terceiro mundo—como a teoria da dependência, do neocolonialismo e dos sistemas-mundo—apontam que o desenvolvimento é globalmente desigual, dividindo necessariamente o mundo em centros e periferias. A leitura do imperialismo mostra que o militarismo e a violência armada são indissociáveis do capitalismo. Teorias feministas e queers revelam a dependência do capitalismo na propriedade privada dos meios de reprodução e na dominação pela privatização do cuidado e da sexualidade na família, no Estado e no mercado. A abordagem do capitalismo racial denuncia a relação histórica entre capitalismo e escravização, revelando as linhas globais de cor do desenvolvimento. Finalmente, teorias ecológicas destacam como o capitalismo transforma a natureza em recurso a ser explorado, tornando o colapso ecológico inevitável.
Em suma, o conceito de capitalismo adentra os estudos críticos do desenvolvimento com o fim de revelar os determinantes históricos e estruturais do “desenvolvimento”. Em outras palavras, capitalismo serve para fazer a crítica radical do desenvolvimento: a recusa da leitura superficial em favor da análise da estrutura profunda. Essa crítica radical revela que o desenvolvimento, ainda que apareça como natural e desejável, é estruturalmente desigual e violento.
Um debate central desse campo crítico hoje disputa a natureza dessa crítica radical. Historicamente, o combate ao capitalismo foi associado à abolição da propriedade privada dos meios de produção e à consequente socialização da riqueza. Todavia, abordagens recentes questionam esse horizonte político como impondo um tipo específico de sociedade—moderna, produtiva, masculina, voltada ao controle da natureza—sobre outras formas de vida cujo objetivo pode ser garantir uma relação específica com a terra ou o cosmos ao invés da socialização da produtividade capitalista. Nesse contexto, o que vem depois do capitalismo como conhecemos hoje: um capitalismo mais humano, um socialismo reconstituído à luz das experiências do século XX, ou a superação da vida moderna? Ou, ainda, o que significa desenvolvimento fora de padrões capitalistas: um desenvolvimento socialista, um desenvolvimento não moderno, ou a negação do desenvolvimento?
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