top of page
Logo Abordagens Críticas ao Desenvolvimento ACD rede

Cooperação (CID) e Cooperação Sul-Sul (CSS)

Foto do escritor: Marina Caixeta
Marina Caixeta
7 de mai.
3 min de leitura

Atualizado: 24 de jul.

Cooperação Internacional do Sul e para o Sul, ou Cooperação Sul-Sul, refere-se a toda e qualquer ação conjunta entre distintos povos e países localizados no Sul global – um grupo de países em desenvolvimento que se autoidentificam como tal na política internacional (Caixeta e Menezes, 2022; Brun, 2022) para a eliminação das desigualdades - no plural, pois abrange desigualdades de renda, riqueza, étnico-racial, de gênero, socioeconômicas etc.


A Cooperação Sul-Sul (CSS) emerge como um mecanismo de assistência e apoio mútuo entre os países na Conferência Afro-Asiática de Bandung em 1955 e tem seu apogeu no século XXI, período em  que se dinamiza e começa um processo de institucionalização. Em 2003, há a substituição na Organização das Nações Unidas (ONU) da expressão oficial “Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CTPD)” pela Cooperação Sul-Sul abarcando as dimensões técnica e econômica, e adoção do dia das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul, celebrado em 19 de dezembro e, depois substituído pelo dia 12 de setembro. No cenário mais crítico, porém, a Cooperação Sul-Sul é reivindicada como um mecanismo para a superação da grande narrativa do desenvolvimento (Caixeta e Santos, 2022). 


Ao partir da memória colonial e da descrença quanto às possibilidades oferecidas pela cooperação tradicional (ou Norte-Sul) de oferecer progresso e bem-estar, surge a cooperação entre os países do então-Terceiro Mundo para benefícios mútuos e como complementação, em vez de substituição ao que havia (Ayllón-Pino, 2014). O Sul global considera que os países do Norte global ainda têm um dever moral e um passivo histórico que deve ser compensado por meio de recursos financeiros, tecnológicos e científicos (além do técnico). Assim, a CSS deve estar comprometida em reverter as assimetrias de recursos (e a hierarquia de poder), impostas pelos sistemas coloniais e capitalista que dividem os países e excluem certos grupos sociais das benesses do avanço alcançado pelo decurso histórico do sistema internacional.        


O Sul global na expressão “Cooperação Sul-Sul”, com isso, marca não apenas um lugar de destino das iniciativas, mas sobretudo, de origem do que deve ser proposto, ou seja, trata-se de uma proposta que deve assumir uma perspectiva crítica, histórica e emancipadora das sociedades a que se direciona (Martín, Lo Brutto e Surasky, 2019). Portanto deve ser aberta (e até promotora!) de abordagens críticas aos planos, modelos e receituários de desenvolvimento. 


A CSS, entretanto, enfrenta vários desafios em afirmar seu caráter distinto no sistema da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID) – uma crise existencial ideológica ou ideacional e, também, operativa (Mawdsley, 2019). Ao lidar com uma governança fragmentada determinada por um Sul global heterogêneo, observa-se a ausência de um conceito e critérios comum para a gestão das suas iniciativas, nos moldes da cooperação tradicional e com o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Nesse sentido, a Cooperação Sul-Sul abre uma agenda de pesquisa e de ação desafiadora. Além de oferecer amplas possibilidades para se abordar diferentes formas e concepções sobre o desenvolvimento (Escobar, 2007), deve-se investigar seus mecanismos de funcionamento valorizando visões das comunidades (no nível local) e a pluralidade de perspectivas do que conforma esse Sul global (Mawdsley, Fourie e Nauta, 2019). 


Referências

Ayllón-Pino, B. Evolução histórica da Cooperação Sul-Sul (CSS). In Souza, A.M. (org.) Repensando a cooperação internacional para o desenvolvimento. Brasília: IPEA, 2014 pp.57-88.


Brun, Elodie. Atores estatais e a etiqueta “Sul”: um estigma estrategicamente invertido. In Milani, C.R.S e Kraychete, E.S. (orgs.) Política Externa e desenvolvimento no Sul geopolítico. Salvador: EdUBA, 2022 pp.131-152


Caixeta, M.B. e Menezes, R.G. Desafios atuais para a cooperação sul-sul: as desigualdades e o sul global. Monções: Revista De Relações Internacionais Da UFGD, 10(20), 2011 pp 486–518. https://doi.org/10.30612/rmufgd.v10i20.13341


Caixeta, M.B. e Santos, M.C.R. Decolonizing South-South Cooperation: an analytical framework founded on post-development and the common. In Duarte, F.D.M. e Valle, V.A.E. (eds.) Decolonizing Politics and Theories from the Abya Yala. E-International Relations Bristol, England 2022 pp.28-49. ISBN: 978-1-910814-62-8  


Escobar, A. La invención del Tercer Mundo: Construcción y deconstrucción del desarrollo. Caracas: Fundación Editorial el Pero y la Rana, 2007. 


Martín, R.D., Lo Brutto, G. e Surasky, J. (eds.) La Constelación del Sur: Lecturas histórico-críticaas de la Cooperación Sur-Sur. Puebla: Benemérita Universidad Autónoma; Santander: Editorial de la Universidad de Cantabria, 2019. 


Mawdsley, E. South-South Cooperation 3.0? Managing the consequences of success in the decade ahead. Oxford Development Studies. London e New York: Routledge, 2019 https://doi.org/10.1080/13600818.2019.1585792 


Mawdsley, E., Fourie, E. e Nauta, W. (eds.) Researching South-South Development Cooperation: the politics of knowledge production. London e New York: Routledge, 2019.

Posts recentes

Ver tudo
Direito à Consulta Livre Prévia e Informada

Versão reduzida 1 O direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI)¹ constitui um dos principais marcos do direito internacional contemporâneo na redefinição das relações entre Estados, povos indí

 
 
 
Abordagens Críticas ao Desenvolvimento

As abordagens críticas ao desenvolvimento, de modo geral, são aquelas que questionam o modelo de desenvolvimento hegemônico vigente e que incorpora certos pressupostos modernos ocidentais daquilo que

 
 
 
Colapso Climático

O colapso climático é uma definição sobre a crise climática que compreende os efeitos de esgotamento ecológico representado pelo alcance ou proximidade aos pontos de não retorno¹ do planeta. Para ente

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page