Decolonialidade
- Daniel Antoine Abou Jaoude

- 7 de mai.
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Atualizado: há 4 dias
O pensamento decolonial tem importância decisiva para a elaboração de uma crítica ao conceito de desenvolvimento na medida em que articula elementos centrais dessa crítica, como assimetrias de poder, desigualdade econômica, racialização e lutas por direitos. Pode ser entendido como um desdobramento posterior da crítica pós-colonial, porém com a particularidade de centralizar menos os aspectos culturais e simbólicos da colonização e mais as estruturas de poder político e econômico que organizam as sociedades contemporâneas.
Nesse sentido, trata-se de uma abordagem que atribui ênfase crucial às desigualdades estruturais, como o racismo, o sexismo e outras formas de dominação, inclusive aquelas inscritas nas hierarquias do saber e da produção de conhecimento. Em sua origem, o pensamento decolonial constitui uma construção eminentemente latino-americana, encabeçada por autores como Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Catherine Walsh, entre outros. Sua formulação buscou fazer frente à perspectiva excessivamente anglófona predominante na crítica pós-colonial, deslocando o eixo de análise para as experiências históricas e sociais da América Latina.
Ao mesmo tempo, essa crítica recoloca no centro do debate a economia política da colonização: a violenta expansão europeia, a acumulação primitiva do capital e a posterior consolidação do imperialismo foram processos decisivos para a conformação do capitalismo mundial. Nesse ponto, a tradição cepalina, especialmente Raúl Prebisch, ajuda a explicitar a estrutura centro-periferia e a dependência histórica dos países latino-americanos, mostrando que o subdesenvolvimento é uma posição produzida historicamente, e não uma etapa natural do progresso. No caso brasileiro, essa discussão adquire matizes próprios, pois a formação social do país combinou colonização de exploração, escravidão em larga escala, racismo estrutural, patriarcalismo e dependência econômica prolongada, em trajetória distinta, em aspectos relevantes, de outros processos latino-americanos.
É nesse sentido que autores como Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes ajudam a compreender a singularidade brasileira. No interior dessa trajetória, o conceito de amefricanidade, formulado por Lélia Gonzalez, explicita a centralidade da experiência negra e a articulação entre raça e gênero, antecipando debates interseccionais. De modo complementar, Davi Kopenawa e Ailton Krenak oferecem uma crítica ecológica e civilizatória à modernidade capitalista, aproximando o pensamento decolonial das discussões sobre o capitaloceno. Já Nego Bispo formula uma perspectiva contra-colonial de base quilombola e epistemológica. Assim, o pensamento decolonial contribui para mostrar que a desigualdade não é um efeito colateral do desenvolvimento, mas um traço constitutivo de sua própria história.
Referências:
PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais. In: BIELSCHOWSKY, Ricardo (org.). Cinqüenta anos de pensamento na CEPAL. Rio de Janeiro: Record, 2000. v. 1, p. 69-136.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010. p. 84-130.
MIGNOLO, Walter D.; WALSH, Catherine E. On decoloniality: concepts, analytics, praxis. Durham: Duke University Press, 2018.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu; Piseagrama, 2023.
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. Rio de Janeiro: Globo, 2008.

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