Epistemicídio
- Ananda Vilela
- 7 de mai.
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Atualizado: há 4 dias
Epistemicídio é o ato de apagar as formas de conhecimento de uma cultura, influenciando a própria experiência do ser ao ocultar tudo aquilo que lhe é caro, que lhe forma enquanto indivíduo ou grupo. O termo epistemicídio foi criado pelo autor português Boaventura de Sousa Santos, apontando as formas como há uma destruição sistemática dos conhecimentos por parte da imposição de uma cultura ocidental, marcadamente eurocêntrica.
No entanto, este termo foi aprofundado por Sueli Carneiro, adequando a análise para as comunidades subalternas pelo mundo através da combinação do termo epistemicídio com o pensamento de Frantz Fanon. Assim, Carneiro (2005, p. 97), define epistemicídio para “além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados, um processo persistente de produção da indigência cultural: pela negação ao acesso à educação, sobretudo de qualidade; pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência material e/ou pelo comprometimento da auto-estima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo. Isto porque não é possível desqualificar as formas de conhecimento dos povos dominados sem desqualificá-los também, individual e coletivamente, como sujeitos cognoscentes.”
O epistemicídio está diretamente conectado com as formas que indivíduos e coletivos podem se desenvolver, uma vez que as noções mainstream de desenvolvimento estão atreladas a uma visão eurocêntrica, um ponto de partida que começa nas comunidades no sul global, ditas selvagens, e tem como chegada a sociedade europeia, plenamente desenvolvida. Esse modelo de desenvolvimento por si só apaga outros saberes e vivências ao redor do mundo por meio de uma hierarquização de saberes.
O desenvolvimento, nos termos ocidentais, especialmente eurocêntricos, tem como o epistemicídio sua principal estrutura. É através do epistemicídio que a Europa se torna o centro do mundo. É através do epistemicídio que o que não é produzido e pensado pela Europa é visto como superstição, atraso, informalidade, ineficiência. É através do epistemicídio que se produz uma monocultura do saber científico, produzindo uma constante ignorância com outros saberes. A tecnocratização das soluções e a universalização das categorias permite o apagamento de formas plurais de ser e estar no mundo que estão diretamente conectadas com políticas de esquecimento e epistemologias da ignorância próprias da sociedade europeia.
Portanto, somente em análises e posturas contrahegêmonicas é possível compreender o que há para além do epistemicídio, para além do saber eurocêntrico, para além das formas limitadas de ver, ser e estar no mundo que o Ocidente impõe.
Referências:
CARNEIRO, S. A construção do outro como não-ser como fundamento do se. Rio de Janeiro: Tese de doutorado, 2005.
KRISHNA, S. Race, amnesia, and the education of internacional relations. In: JONES, B. G. Decolonizing International Relation. Maryland: Rowman & Littlefield, 2006.
MILLS, C. W. The Racial Contract. New York: Cornell University, 1997.
SANTOS, B. D. S.; MENEZES, M. P. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010

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