Modernidade
- Marta Fernández
- 24 de jul.
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No campo do desenvolvimento, a modernidade costuma ser associada a ideais de razão, progresso e emancipação, sendo entendida como um conjunto de formas de organização social que emergem a partir do século XVII na Europa e se expandem em escala global (Giddens, 1990). Nessa leitura, a modernidade aparece como um processo dinâmico de transformação social, marcado pela ruptura com as formas tradicionais de vida e pela reorganização contínua das instituições e das relações sociais. Nesse registro, “modernização” e “progresso” operam frequentemente como termos equivalentes, designando processos pelos quais sociedades consideradas “tradicionais” deveriam alcançar padrões definidos a partir da experiência ocidental, conforme formulado pelas teorias clássicas da modernização (Rostow, 1960).
Todavia, no âmbito das Abordagens Críticas ao Desenvolvimento, essa forma de narrar a modernidade é historicamente situada, na medida em que transforma as experiências particulares da Europa em um horizonte normativo global, operando por meio do que Michel-Rolph Trouillot (2002) denomina “universais do Atlântico Norte”. Nesse processo, o mundo é organizado segundo uma temporalidade linear, na qual algumas sociedades se projetam como modernas, enquanto outras são classificadas como “atrasadas”, “tradicionais” ou “em desenvolvimento” (Inayatullah; Blaney, 2004; Jahn, 2000). É precisamente essa operação de nomeação que transforma diferenças históricas em hierarquias globais e constitui as condições de possibilidade para a emergência do desenvolvimento como campo de saber e prática. Como argumenta Arturo Escobar (1995), o desenvolvimento opera como um discurso que produz o mundo que nomeia, ao instituir o “Terceiro Mundo” como objeto de conhecimento e intervenção.
Perspectivas decoloniais aprofundam essa crítica ao sustentar que a modernidade e a colonialidade são processos indissociáveis. Como argumenta Aníbal Quijano (2005), a constituição da modernidade está intrinsecamente ligada à colonialidade do poder, isto é, à produção de hierarquias raciais que estruturam simultaneamente as esferas econômica, epistêmica e política da ordem global. Nesse sentido, a modernidade não pode ser compreendida como um conceito dotado de conteúdo fixo ou definido a priori, mas como uma construção histórica disputada, cuja definição depende da produção de um “Outro” constitutivo, frequentemente definido pela ausência dos padrões institucionais, econômicos e culturais ocidentais. Sueli Carneiro (2005) argumenta que esse processo implica a construção do Outro como “não-ser”, isto é, de sujeitos cuja humanidade é permanentemente posta sob suspeita por meio de dispositivos raciais, epistêmicos e civilizatórios. Tal dinâmica, constitutiva da própria modernidade/colonialidade, envolve também o que a autora denomina epistemicídio: um processo de deslegitimação, subalternização e apagamento de saberes produzidos por sujeitos racializados (Carneiro, 2005).
Essa crítica é reforçada por abordagens que questionam a própria narrativa de origem da modernidade. Como argumenta Gurminder K. Bhambra (2010), leituras eurocêntricas tendem a abstrair as conexões históricas entre a Europa e o resto do mundo, produzindo a ideia de processos internos e autoexplicativos que obscurecem as relações coloniais que lhes deram origem. Contra essa perspectiva, a modernidade deve ser compreendida como um processo relacional, no qual a Europa e os “outros” se constituem mutuamente. Essa leitura permite deslocar a ideia de uma modernidade que emerge como um processo autônomo e endógeno à Europa para compreendê-la como dependente da expansão e da conquista colonial, da racialização e da exploração global, que estabeleceram as condições de possibilidade para sua emergência e consolidação.
Mais do que um destino comum, a modernidade revela-se como uma narrativa que produz hierarquias de humanidade e estrutura o próprio campo do desenvolvimento, definindo quem deve ser transformado, como e por quem — razão pela qual sua crítica exige desnaturalizá-la, deslocar seu centro e abrir espaço para outras formas de ser e estar no mundo, historicamente silenciadas pelo projeto moderno/colonial.
Referências bibliográficas:
BHAMBRA, Gurminder K. Historical sociology, international relations and connected histories. Cambridge Review of International Affairs, v. 23, n. 1, p. 127–143, 2010.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
ESCOBAR, Arturo. Encountering Development: The Making and Unmaking of the Third World. Princeton: Princeton University Press, 1995.
GIDDENS, Anthony. The Consequences of Modernity. Stanford: Stanford University Press, 1990.
INAYATULLAH, Naeem; BLANEY, David L. International Relations and the Problem of Difference. New York: Routledge, 2004.
JAHN, Beate. The Cultural Construction of International Relations: The Invention of the State of Nature. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2000.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117–142.
ROSTOW, Walt W. The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto. Cambridge: Cambridge University Press, 1960.
TROUILLOT, Michel-Rolph. North Atlantic Universals: Analytical Fictions, 1492–1945. South Atlantic Quarterly, v. 101, n. 4, p. 839–858, 2002.

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