Progresso
Progresso talvez seja um dos conceitos mais disputados e contestados das ciências sociais. Um dos legados do iluminismo é a ideia de que o progresso era uma tendência natural e automática da história humana, que levaria a novas e melhores formas de organização econômica e social, algo presente mesmo nas tradições críticas da modernidade. Um elemento central na definição de progresso é a conquista de autonomia do humano sobre as limitações do meio ambiente, cujo corolário é uma visão instrumental e extrativa da natureza não-humana (Charbonnier, 2021). O século XX representou duros golpes tanto às teorias do progresso como às nas suas manifestações concretas em especial pelas grandes guerras e pelo Holocausto, mas também pela violenta repressão de povos que se insurgiram contra a colonização, a miséria e a opressão. Se há um balanço possível, ele deve partir da constatação de que o progresso não é uma tendência automática e implacável da humanidade, muito menos um projeto claramente definido, que resta apenas implementar. O compromisso com uma nova ideia de progresso talvez seja o compromisso ético-político central dos estudos do desenvolvimento, que traduziram esse horizonte na forma de um projeto político de transformação estrutural das economias agrárias em democracias industriais (Wallerstein, 1988; Escobar, 1995).
A crise das grandes narrativas do final da Guerra Fria e o século XXI também apresentaram novos contextos e novos desafios para a ideia de progresso. A mudança de orientação dos projetos de desenvolvimento passa de ambições de transformação estrutural para intervenções pontuais e focalizadas, uma manifestação de um mundo que subordinou o horizonte do progresso à globalização capitalista. De forma semelhante, a crescente consciência dos impactos do desenvolvimento capitalista sobre a Terra coloca questões para a própria possibilidade da reprodução da vida humana no planeta, impondo repensar os critérios que guiam a busca pelo progresso.
Para as abordagens críticas do desenvolvimento, o cerne da questão hoje parece ser menos a definição e busca pelo progresso, e mais uma questão anterior sobre a utilidade de reivindicar ou buscar novas ideias de progresso. Diante das mudanças recentes nos estudos do desenvolvimento do século XXI, é importante colocar algumas questões anteriores: quem vai definir o que é progresso e como ele será medido? Que diálogos, coalizões e consensos podem ser produzidos em torno de novas ideias e novas formas de se medir o progresso? Como formular agendas políticas que tenham como eixo a partir do empoderamento daqueles que até agora são seus “objetos”? Um outro conjunto de questões caras às abordagens críticas do desenvolvimento orbita a pergunta o “que fazer se abandonamos a ideia de progresso?”
Esse é um caso em que as respostas não virão apenas da teorização, mas na passagem à disputa política. Na era do policrise (Fernandes, 2026), no entanto, cabe pensar tanto os desafios à ideia de progresso como as balizas que poderão servir à uma nova perspectiva sobre o progresso. A consciência sobre o impacto planetário do capitalismo, do degelo do Ártico aos microplásticos no leite materno, nos desafia a pensar novas formas de habitar e de compartilhar o planeta. A regeneração dos ecossistemas, o cuidado da natureza humana com a não-humana e a superação de autonomia baseadas na extração e exploração do humano e do não-humano são, certamente, elementos centrais para os programas políticos do presente e para a construção de um futuro – tanto para os que acreditam na formulação de uma nova ideia de progresso, ajustada para esses desafios, como para aqueles que crêem que o abandono da ideia de progresso é um passo central para criar novas formas de habitar o mundo.
Referências:
Charbonnier, Pierre. Abundância e Liberdade. Uma história ambiental das ideias políticas. Tradução de Fabio Mascaro Querido. São Paulo: Boitempo, 2021.
Escobar, Arturo. Encountering Development: the making and unmaking of the third world. Princeton University Press, 1995
Fernandes, Sabrina. Faulty State Sovereignty in the Polycrisis. The Global Left In A Multipolar World. p. 155-172, 2026. Routledge. http://dx.doi.org/10.4324/9781003466239-12.
Wallerstein, Immanuel. Development: Lodestar or Illusion? Economic and Political Weekly 23, no. 39, 1988: 2017–23.

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