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Racismo

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ACD-Rede
24 de jul.
7 min de leitura

Um dos consensos entre a teoria econômica mainstream, o desenvolvimentismo e as abordagens críticas do desenvolvimento é o aspecto desigual do desenvolvimento econômico. Apesar de esperanças de convergência econômica, a geografia econômica é marcadamente desigual, com polos de riqueza e de pobreza, dinamismo e estagnação que coexistem e se articulam na economia global. A expansão ultramarina europeia marca um momento-chave na tessitura desse mundo, especialmente pelo contato sustentado do mundo europeu com formações sociais diferentes. As explicações produzidas para a diferença enfatizaram o aspecto racial. A cisão entre o humano e a natureza, então, foi reproduzida para o interior da humanidade para classificar os diversos grupos humanos a partir de sua maior proximidade do “mundo natural” - e, portanto, da possibilidade de apropriação das terras e do trabalho que não estivessem sob o regime de acumulação predominante na Europa. Assim, a raça surge como um marcador social da diferença e é possível definir o racismo como a promoção e reprodução (consciente ou não), dessas hierarquias entre humanos. O genocídio das populações nativas do Novo Mundo e a escravização dos povos da África - e suas consequências estruturais para a economia global - são exemplos-chave para compreender a constelação de práticas racistas que buscaram e ainda buscam redesenhar espaços, populações e ecologias (Ferdinand, 2022) em favor dos processos de acumulação capitalista. Se, por um lado, as práticas racistas buscam produzir novos sujeitos (o negro, o branco, o pobre, o cidadão, o trabalhador, o vadio) – a serem categorizados e por outro ele busca criar espaços vazios e justificar a espoliação e desterritorialização dessas populações transformadas.


As diferenças entre as formações sociais e sua inclusão diferencial no modo de produção capitalista deram origem a manifestações modernas do racismo. Os processos de industrialização das periferias – parte fundamental do projeto de desenvolvimento do século XX – acirrou essa polarização a partir da inclusão diferencial de populações de colonos e de colonizados. A expressão dessa polarização se concretiza nas dinâmicas de marginalização. A marginalização é consequência direta do empobrecimento e desenraizamento das populações colonizadas, deslocadas, expropriadas de seus territórios tradicionais e subsumidos nos estados e economias nacionais e internacionais. A divisão racial (e sexual) do trabalho situa populações não-brancas em situação desvantajosa para disputar sua inserção em postos de maior remuneração e, por consequência, disputar a “ascensão social” (Fernandes, 1967; Gonzalez, 2020). Aliado a isso, existe a perpetuação de uma cidadania parcial, precária, marcada pela privação de direitos. Mesmo diante das oportunidades e do crescimento da renda do trabalho que caracterizaram momentos de industrialização periférica, essas populações não conseguem aferir esses benefícios na mesma medida que as populações brancas. Uma manifestação geográfica que a acompanha é o racismo ambiental (Bullard, 1993), relacionado ao maior risco, maior vulnerabilidade e maior exposição a riscos ambientais que comunidades não-brancas experimentam, ou ainda para o processo de produção de ambientes tóxicos, agressivos e hostis em regiões habitadas por populações não brancas (Opperman, 2019).




Referências:


Bullard, R. D. Anatomy of Environmental Racism and the Environmental Justice Movement. In: Bullard, R. D. (ed). Confronting Environmental Racism: Voices from the Grassroots, Boston: South End Press, 1993, p.15-39.


Ferdinand, Malcom. Os matricidas do plantationceno. In: Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. 1. ed. Ubu Editora, 2022.


Fernandes, Florestan (1967). “The Weight of the Past”. Deadalus, vol. 96, no. 2: 560-579.


Gonzalez, Lélia (2020). A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica; Racismo e sexismo na cultura brasileira. Por um feminismo afro-latino-americano. Zahar.


Opperman, Romy (2019). A permanent struggle against an omnipresent death: revisiting environmental racism with Fanon.


Dívida


Mecanismo fundamental para a vida econômica. As implicações políticas da dívida talvez sejam a dimensão mais importante do conceito. Nos estudos do desenvolvimento, a dívida pública e seus entrelaçamentos políticos têm grande destaque, tanto pelo seu papel nos processos de desenvolvimento como pelas implicações políticas do endividamento para a autodeterminação e o autogoverno. O endividamento público sempre foi um elemento importante de processos de desenvolvimento, especialmente para remediar a escassez crônica de capital das economias periféricas e permitir o financiamento, a longo prazo, de investimentos em infraestrutura e nas indústrias consideradas estratégicas para o desenvolvimento. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, crises das dívidas em regiões e países periféricos (América Latina, Rússia, Ásia) marcaram o cenário econômico mundial afetando as vidas de bilhões de pessoas e fazendo as fortunas de alguns poucos.


As renegociações condicionais em fóruns multilaterais como o FMI geraram os programas de ajuste estrutural, que exigiam contrapartidas para a renegociação de dívidas e liberação de crédito. Tais contrapartidas, em geral, envolviam reformas políticas e de política econômica pré-determinadas, tais como reformas administrativas, reformas previdenciárias e redução, no geral, do gasto social do Estado em favor do ajuste das contas. Os estudos críticos do desenvolvimento são influenciados por esse contexto e pela constatação de uma função política da dívida: o reposicionamento do Estado na gestão econômica e no processo de globalização capitalista. Dessa breve apresentação, é importante destacar dois elementos. O primeiro é a relação da dívida com as desigualdades estruturais e estruturantes da economia global – o colonialismo e a colonialidade das estruturas de governança global (Souza, Nascimento, Reis, 2025; Oxfam, 2025). O fardo da dívida e as sucessivas dificuldades só se configuram com um limite absoluto a estados periféricos porque esse sistema se estrutura a partir de hierarquias coloniais e dos processos de extração e espoliação que caracterizam o colonialismo. A segundo é o papel da dívida como regime disciplinar (Sassen, 2010), como ferramenta que reposiciona o Estado não só na economia, mas em sua relação com a população


A política da dívida tem grande peso nas disputas relacionadas à definição do papel do Estado. O espaço fiscal ocupado pela dívida representa menores possibilidades de investimento público na provisão de serviços ou em projetos de longo prazo voltados a transformações estruturais, representando restrições ao exercício da soberania popular. Além disso, a necessidade de conciliar esses pagamentos com o funcionamento normal do Estado também demandam uma busca por aumento nas receitas, em especial por meio do aumento das exportações de commodities, o que tem representado um aprofundamento das dinâmicas extrativistas e ganho na importância política de setores extrativos (IRERDNC, 2024). Os empréstimos e negociações típicos dos anos 1980-90 foram condicionados a reformas de estado impostas pelas organizações multilaterais e pelo receituário de instituições opacas e com pouco espaço para a consulta e para a atuação informada da sociedade civil, driblando o crivo da vontade popular e o debate público. De forma semelhante, as dívidas contraídas por governos autoritários, ou mesmo governos democráticos são, muitas vezes, tomadas ao arrepio de qualquer consideração sobre o apoio popular ou bem-estar da população, o que levanta mais questões a respeito da compatibilidade entre os acordos e renegociações em vigor e a autodeterminação dos povos.


Referências:


Interim Report of the Expert Review on Debt, Nature and Climate: Tackling the vicious circle. Expert Review on Debt, Nature and Climate, 2024. Disponível em: <https://debtnatureclimate.org/reports/tackling-the-vicious-circle-theinterim-report-of-the-exp ert-review-on-debt-nature-and-climate/>


Oxfam, (2025). Às custas de quem? A origem da riqueza e a construção da injustiça no colonialismo.


Souza, J. A. de, Nascimento, D. M. G., & Reis, B. de O. (2025). Fardos coloniais e a dívida externa como ferramenta de dominação sobre países africanos. InterAção, 16(5), e94104. https://doi.org/10.5902/2357797594104


WARTIAINEN, Felicia; BOER, Bram; PAUW, Pieter; ROMIJN, Henny. Addressing the Twin Crises of Debt and Climate: exploring unconditional debt cancellation. Development, v. 67, n. 3-4, p. 187-196, dez. 2024. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1057/s41301-025-00424-y.


Progresso


Progresso talvez seja um dos conceitos mais disputados e contestados das ciências sociais. Um dos legados do iluminismo é a ideia de que o progresso era uma tendência natural e automática da história humana, que levaria a novas e melhores formas de organização econômica e social, algo presente mesmo nas tradições críticas da modernidade. Um elemento central na definição de progresso é a conquista de autonomia do humano sobre as limitações do meio ambiente, cujo corolário é uma visão instrumental e extrativa da natureza não-humana (Charbonnier, 2021). O século XX representou duros golpes tanto às teorias do progresso como às nas suas manifestações concretas em especial pelas grandes guerras e pelo Holocausto, mas também pela violenta repressão de povos que se insurgiram contra a colonização, a miséria e a opressão. Se há um balanço possível, ele deve partir da constatação de que o progresso não é uma tendência automática e implacável da humanidade, muito menos um projeto claramente definido, que resta apenas implementar. O compromisso com uma nova ideia de progresso talvez seja o compromisso ético-político central dos estudos do desenvolvimento, que traduziram esse horizonte na forma de um projeto político de transformação estrutural das economias agrárias em democracias industriais (Wallerstein, 1988; Escobar, 1995).


A crise das grandes narrativas do final da Guerra Fria e o século XXI também apresentaram novos contextos e novos desafios para a ideia de progresso. A mudança de orientação dos projetos de desenvolvimento passa de ambições de transformação estrutural para intervenções pontuais e focalizadas, uma manifestação de um mundo que subordinou o horizonte do progresso à globalização capitalista. De forma semelhante, a crescente consciência dos impactos do desenvolvimento capitalista sobre a Terra coloca questões para a própria possibilidade da reprodução da vida humana no planeta, impondo repensar os critérios que guiam a busca pelo progresso.


Para as abordagens críticas do desenvolvimento, o cerne da questão hoje parece ser menos a definição e busca pelo progresso, e mais uma questão anterior sobre a utilidade de reivindicar ou buscar novas ideias de progresso. Diante das mudanças recentes nos estudos do desenvolvimento do século XXI, é importante colocar algumas questões anteriores: quem vai definir o que é progresso e como ele será medido? Que diálogos, coalizões e consensos podem ser produzidos em torno de novas ideias e novas formas de se medir o progresso? Como formular agendas políticas que tenham como eixo a partir do empoderamento daqueles que até agora são seus “objetos”? Um outro conjunto de questões caras às abordagens críticas do desenvolvimento orbita a pergunta o “que fazer se abandonamos a ideia de progresso?”


Esse é um caso em que as respostas não virão apenas da teorização, mas na passagem à disputa política. Na era do policrise (Fernandes, 2026), no entanto, cabe pensar tanto os desafios à ideia de progresso como as balizas que poderão servir à uma nova perspectiva sobre o progresso. A consciência sobre o impacto planetário do capitalismo, do degelo do Ártico aos microplásticos no leite materno, nos desafia a pensar novas formas de habitar e de compartilhar o planeta. A regeneração dos ecossistemas, o cuidado da natureza humana com a não-humana e a superação de autonomia baseadas na extração e exploração do humano e do não-humano são, certamente, elementos centrais para os programas políticos do presente e para a construção de um futuro – tanto para os que acreditam na formulação de uma nova ideia de progresso, ajustada para esses desafios, como para aqueles que crêem que o abandono da ideia de progresso é um passo central para criar novas formas de habitar o mundo.


Referências:


Charbonnier, Pierre. Abundância e Liberdade. Uma história ambiental das ideias políticas. Tradução de Fabio Mascaro Querido. São Paulo: Boitempo, 2021.


Escobar, Arturo. Encountering Development: the making and unmaking of the third world. Princeton University Press, 1995


Fernandes, Sabrina. Faulty State Sovereignty in the Polycrisis. The Global Left In A Multipolar World. p. 155-172, 2026. Routledge. http://dx.doi.org/10.4324/9781003466239-12.


Wallerstein, Immanuel. Development: Lodestar or Illusion? Economic and Political Weekly 23, no. 39, 1988: 2017–23.

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