top of page
Logo Abordagens Críticas ao Desenvolvimento ACD rede

Racismo

Pedro Allemand
24 de jul.
3 min de leitura

Atualizado: 23 de set.

Um dos consensos entre a teoria econômica mainstream, o desenvolvimentismo e as abordagens críticas do desenvolvimento é o aspecto desigual do desenvolvimento econômico. Apesar de esperanças de convergência econômica, a geografia econômica é marcadamente desigual, com polos de riqueza e de pobreza, dinamismo e estagnação que coexistem e se articulam na economia global. A expansão ultramarina europeia marca um momento-chave na tessitura desse mundo, especialmente pelo contato sustentado do mundo europeu com formações sociais diferentes. As explicações produzidas para a diferença enfatizaram o aspecto racial. A cisão entre o humano e a natureza, então, foi reproduzida para o interior da humanidade para classificar os diversos grupos humanos a partir de sua maior proximidade do “mundo natural” - e, portanto, da possibilidade de apropriação das terras e do trabalho que não estivessem sob o regime de acumulação predominante na Europa. Assim, a raça surge como um marcador social da diferença e é possível definir o racismo como a promoção e reprodução (consciente ou não), dessas hierarquias entre humanos. O genocídio das populações nativas do Novo Mundo e a escravização dos povos da África - e suas consequências estruturais para a economia global - são exemplos-chave para compreender a constelação de práticas racistas que buscaram e ainda buscam redesenhar espaços, populações e ecologias (Ferdinand, 2022) em favor dos processos de acumulação capitalista. Se, por um lado, as práticas racistas buscam produzir novos sujeitos (o negro, o branco, o pobre, o cidadão, o trabalhador, o vadio) – a serem categorizados e por outro ele busca criar espaços vazios e justificar a espoliação e desterritorialização dessas populações transformadas.


As diferenças entre as formações sociais e sua inclusão diferencial no modo de produção capitalista deram origem a manifestações modernas do racismo. Os processos de industrialização das periferias – parte fundamental do projeto de desenvolvimento do século XX – acirrou essa polarização a partir da inclusão diferencial de populações de colonos e de colonizados. A expressão dessa polarização se concretiza nas dinâmicas de marginalização. A marginalização é consequência direta do empobrecimento e desenraizamento das populações colonizadas, deslocadas, expropriadas de seus territórios tradicionais e subsumidos nos estados e economias nacionais e internacionais. A divisão racial (e sexual) do trabalho situa populações não-brancas em situação desvantajosa para disputar sua inserção em postos de maior remuneração e, por consequência, disputar a “ascensão social” (Fernandes, 1967; Gonzalez, 2020). Aliado a isso, existe a perpetuação de uma cidadania parcial, precária, marcada pela privação de direitos. Mesmo diante das oportunidades e do crescimento da renda do trabalho que caracterizaram momentos de industrialização periférica, essas populações não conseguem aferir esses benefícios na mesma medida que as populações brancas. Uma manifestação geográfica que a acompanha é o racismo ambiental (Bullard, 1993), relacionado ao maior risco, maior vulnerabilidade e maior exposição a riscos ambientais que comunidades não-brancas experimentam, ou ainda para o processo de produção de ambientes tóxicos, agressivos e hostis em regiões habitadas por populações não brancas (Opperman, 2019).



Referências:


Bullard, R. D. Anatomy of Environmental Racism and the Environmental Justice Movement. In: Bullard, R. D. (ed). Confronting Environmental Racism: Voices from the Grassroots, Boston: South End Press, 1993, p.15-39.


Ferdinand, Malcom. Os matricidas do plantationceno. In: Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. 1. ed. Ubu Editora, 2022.


Fernandes, Florestan (1967). “The Weight of the Past”. Deadalus, vol. 96, no. 2: 560-579.


Gonzalez, Lélia (2020). A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica; Racismo e sexismo na cultura brasileira. Por um feminismo afro-latino-americano. Zahar.


Opperman, Romy (2019). A permanent struggle against an omnipresent death: revisiting environmental racism with Fanon.



Posts recentes

Ver tudo
Direito à Consulta Livre Prévia e Informada

Versão reduzida 1 O direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI)¹ constitui um dos principais marcos do direito internacional contemporâneo na redefinição das relações entre Estados, povos indí

 
 
 
Abordagens Críticas ao Desenvolvimento

As abordagens críticas ao desenvolvimento, de modo geral, são aquelas que questionam o modelo de desenvolvimento hegemônico vigente e que incorpora certos pressupostos modernos ocidentais daquilo que

 
 
 
Colapso Climático

O colapso climático é uma definição sobre a crise climática que compreende os efeitos de esgotamento ecológico representado pelo alcance ou proximidade aos pontos de não retorno¹ do planeta. Para ente

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page