Racismo
Atualizado: 23 de set.
Um dos consensos entre a teoria econômica mainstream, o desenvolvimentismo e as abordagens críticas do desenvolvimento é o aspecto desigual do desenvolvimento econômico. Apesar de esperanças de convergência econômica, a geografia econômica é marcadamente desigual, com polos de riqueza e de pobreza, dinamismo e estagnação que coexistem e se articulam na economia global. A expansão ultramarina europeia marca um momento-chave na tessitura desse mundo, especialmente pelo contato sustentado do mundo europeu com formações sociais diferentes. As explicações produzidas para a diferença enfatizaram o aspecto racial. A cisão entre o humano e a natureza, então, foi reproduzida para o interior da humanidade para classificar os diversos grupos humanos a partir de sua maior proximidade do “mundo natural” - e, portanto, da possibilidade de apropriação das terras e do trabalho que não estivessem sob o regime de acumulação predominante na Europa. Assim, a raça surge como um marcador social da diferença e é possível definir o racismo como a promoção e reprodução (consciente ou não), dessas hierarquias entre humanos. O genocídio das populações nativas do Novo Mundo e a escravização dos povos da África - e suas consequências estruturais para a economia global - são exemplos-chave para compreender a constelação de práticas racistas que buscaram e ainda buscam redesenhar espaços, populações e ecologias (Ferdinand, 2022) em favor dos processos de acumulação capitalista. Se, por um lado, as práticas racistas buscam produzir novos sujeitos (o negro, o branco, o pobre, o cidadão, o trabalhador, o vadio) – a serem categorizados e por outro ele busca criar espaços vazios e justificar a espoliação e desterritorialização dessas populações transformadas.
As diferenças entre as formações sociais e sua inclusão diferencial no modo de produção capitalista deram origem a manifestações modernas do racismo. Os processos de industrialização das periferias – parte fundamental do projeto de desenvolvimento do século XX – acirrou essa polarização a partir da inclusão diferencial de populações de colonos e de colonizados. A expressão dessa polarização se concretiza nas dinâmicas de marginalização. A marginalização é consequência direta do empobrecimento e desenraizamento das populações colonizadas, deslocadas, expropriadas de seus territórios tradicionais e subsumidos nos estados e economias nacionais e internacionais. A divisão racial (e sexual) do trabalho situa populações não-brancas em situação desvantajosa para disputar sua inserção em postos de maior remuneração e, por consequência, disputar a “ascensão social” (Fernandes, 1967; Gonzalez, 2020). Aliado a isso, existe a perpetuação de uma cidadania parcial, precária, marcada pela privação de direitos. Mesmo diante das oportunidades e do crescimento da renda do trabalho que caracterizaram momentos de industrialização periférica, essas populações não conseguem aferir esses benefícios na mesma medida que as populações brancas. Uma manifestação geográfica que a acompanha é o racismo ambiental (Bullard, 1993), relacionado ao maior risco, maior vulnerabilidade e maior exposição a riscos ambientais que comunidades não-brancas experimentam, ou ainda para o processo de produção de ambientes tóxicos, agressivos e hostis em regiões habitadas por populações não brancas (Opperman, 2019).
Referências:
Bullard, R. D. Anatomy of Environmental Racism and the Environmental Justice Movement. In: Bullard, R. D. (ed). Confronting Environmental Racism: Voices from the Grassroots, Boston: South End Press, 1993, p.15-39.
Ferdinand, Malcom. Os matricidas do plantationceno. In: Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. 1. ed. Ubu Editora, 2022.
Fernandes, Florestan (1967). “The Weight of the Past”. Deadalus, vol. 96, no. 2: 560-579.
Gonzalez, Lélia (2020). A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica; Racismo e sexismo na cultura brasileira. Por um feminismo afro-latino-americano. Zahar.
Opperman, Romy (2019). A permanent struggle against an omnipresent death: revisiting environmental racism with Fanon.

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