top of page
Logo Abordagens Críticas ao Desenvolvimento ACD rede

Reparação

Jéser Abílio
24 de jul.
3 min de leitura

Atualizado: 23 de set.

A reparação é um conceito que surgiu no campo jurídico. O direito internacional reconhece o direito à reparação, compreendido como a “oferta de bens tangíveis ou serviços às vítimas e sobreviventes” (Roht-Arriaza; Orlovsky, 2009: 171) de graves violações de direitos humanos, em contextos de conflitos armados, regimes autoritários e justiça de transição (Balasco, 2016). Assim, a reparação é tratada como uma resposta a episódios isolados de violência, centrada em indivíduos afetados e fundamentada em mecanismos institucionais de compensação legal.


Contudo, nas Abordagens Críticas ao Desenvolvimento, a ideia de reparação é reconfigurada para abordar as desigualdades socioeconômicas entre e dentro das nações (Sylla et al. 2024). A origem dessas desigualdades está intrinsecamente vinculada ao tráfico transatlântico, à colonização e ao imperialismo, processos históricos que moldaram as hierarquias econômicas na estrutura atual do capitalismo global (Sylla et al. 2024). Tais hierarquias se materializaram, ao longo do tempo, a partir da distribuição desigual de recursos, trabalho, infraestrutura e poder (Táíwò, 2022). Portanto, ao invés de conceber a reparação como uma resposta isolada, restrita a um simples pagamento, restituição ou medida simbólica, ela é reinterpretada como um processo de transformação estrutural das condições materiais do sistema econômico global.


Táíwò (2022) define a reparação como projeto de construção de um mundo mais justo, cujo objetivo é interromper ou reconfigurar o processo acumulativo de vantagens e desvantagens sociais, por meio de ação coletiva e de escolhas políticas direcionadas para a criação de normas, instituições e relações sociais. O autor menciona, como ilustração, a Comunidade do Caribe, cujo seu programa de reparação abarca a erradicação do analfabetismo, o cancelamento da dívida e respostas abrangentes às crises de saúde; e a Autoridade Nacional de Fundos Fiduciários de Reparações dos Estados Unidos, que previa a transferência de terras e de recursos para financiar a construção de vilas sustentáveis, equipadas com moradias acessíveis e serviços abrangentes (educação, saúde e emprego) destinado às comunidades afro-americanas. Assim, a reparação é articulada diretamente com o desenvolvimento e as políticas sociais, pois é parte constitutiva da transformação das condições materiais mediante o acesso a serviços, a redistribuição de recursos e a reorganização institucional.


Já Sylla et al. (2024) sustentam que as reivindicações por reparações têm recebido respaldo, por exemplo, por movimentos sociais, pan-africanistas, indígenas e ativistas climáticos, que, embora mobilizem distintos repertórios, convergem em uma agenda comum para abordar desafios globais. Entre esses desafios estão a crise da dívida, os custos econômicos das mudanças climáticas e as transferências financeiras do Sul Global para o Norte Global. Entretanto, os autores destacam uma tensão profunda: de um lado, existe a expectativa de alcançar avanços com ganhos redistributivos que promovam mudanças transformadoras em escala global; de outro, a própria lógica da economia política capitalista pode minar essas lutas ao reduzi-las a mera transferência monetária, subordinada aos programas de ajuda para o desenvolvimento, a fim de diluir seu conteúdo político e histórico. Para evitar a sua cooptação pela ordem capitalista, os autores enfatizam a necessidade de promover a reparação de forma sistêmica dentro de um arcabouço de justiça reparativa que priorize a transformação estrutural.



Referências:


BALASCO, Lauren Marie. Reparative development: re-conceptualising reparations in transitional justice processes. Conflict, Security & Development, v. 17, n. 1, p. 1-20, 2016.


ROHT-ARRIAZA, Naomi; ORLOVSKY, Katharine. A complementary relationship: reparations and development. In: DE GREIFF, Pablo; DUTHIE, Roger (ed.). Transitional justice and development: making connections. New York: Social Science Research Council, 2009, p. 170-213.


SYLLA, Ndongo Samba; FISCHER, Andrew M.; KALTENBRUNNER, Annina; SATHI, Sreerekha. Global reparations within capitalism: aspirations and tensions in contemporary movements for reparatory justice. Development and Change, v. 55, n. 4, p. 560-600, 2024.


TÁÍWÒ, Olúfẹ́mi O. Reconsidering reparations. New York: Oxford University Press, 2022.

Posts recentes

Ver tudo
Direito à Consulta Livre Prévia e Informada

Versão reduzida 1 O direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI)¹ constitui um dos principais marcos do direito internacional contemporâneo na redefinição das relações entre Estados, povos indí

 
 
 
Abordagens Críticas ao Desenvolvimento

As abordagens críticas ao desenvolvimento, de modo geral, são aquelas que questionam o modelo de desenvolvimento hegemônico vigente e que incorpora certos pressupostos modernos ocidentais daquilo que

 
 
 
Colapso Climático

O colapso climático é uma definição sobre a crise climática que compreende os efeitos de esgotamento ecológico representado pelo alcance ou proximidade aos pontos de não retorno¹ do planeta. Para ente

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page