Corpo Território
O conceito de corpo-território, tecido pelas feministas comunitárias indígenas Aimarás e Xynkas, parte de suas experiências de luta organizada em Abya Yala, e emerge como proposta de uma nova posição feminista. Integrado às lutas históricas pela recuperação e defesa da terra, a ideia de corpo-território representa a defesa da garantia do espaço concreto territorial, onde se manifesta a vida dos corpos (Cabnal, 2010). O conceito se relaciona às abordagens críticas ao desenvolvimento por rejeitar a lógica do desenvolvimento enquanto algo neutro e a natureza como recurso a ser explorado, além de recusar a ideia de desenvolvimento como crescimento contínuo às custas dos ecossistemas e do tecido social. As feministas comunitárias propõem uma posição ontoepistemológica cosmogônica, que se ancora na memória ancestral para uma leitura política corporificada e radicalmente enraizada na terra e no território local (Paredes, 2008). A própria práxis feminista que orienta o fiar do conceito já o coloca em prática enquanto metodologia de produção de conhecimento corporificado. Ele surge do encontro entre as lutas contra a expropriação territorial e lógica econômica de domínio, e o sentipensar das feministas organizadas nessa luta, que compreenderam que é nessa intersecção –do corpo território– que a expropriação da terra e dos recursos naturais e a expropriação do corpo, especialmente o generificado, se encontram, sob a hegemonia do domínio.
Nesse sentido, o corpo é território na medida em que ele é o local onde as relações de poder nos marcam em vida, é nesse local que ocorrem os processos de generificação e racialização. O corpo é, portanto, o primeiro território habitado, e sobre ele incidem violências históricas, assim como na terra, que é território histórico (Cabnal, 2010). Ao mesmo tempo, o corpo é o território onde exercemos a liberdade na luta contra a repressão, o corpo é o local que compreende a afetividade, a sensibilidade, o sentimento, o erotismo, a espiritualidade e também a criatividade. E o espaço, por sua vez, é o meio vital para que o corpo se desenvolva (Paredes, 2008). Aqui, a ideia de desenvolvimento está ligada à existência plena, centrada em bem estar e integridade, –tanto corpórea quanto do tecido coletivo–, contrariando a lógica exploratória tradicional ligada a projetos extrativistas, como mineração, agronegócio e a monocultura. A partir da reunião entre corpo e território, o conceito critica a fragmentação da realidade em unidades exploráveis, em que a terra se torna recurso natural e o corpo ou população se torna mão de obra, ambos fragmentados, para uma unidade em que a indissociabilidade é que permite o equilíbrio.
O conceito é pioneiro pois olha de maneira transversal e permite uma análise multinível que transiciona entre o pessoal, o local e o global, mostrando não somente que o pessoal é político mas relacionando a micropolítica à macropolítica. O conceito enfatiza que não existe vida sem território, pois as cosmologias e modos de vida estão nele enraizados. Sendo esse o ponto central do argumento das feministas contra o extrativismo, que não somente destroi e expropria o território, como destrói o modo de vida, e o que oferece no lugar é a oferta de integrar o trabalho minerador. O que o conceito representa é a defesa contra a expropriação de maneira completa, contra a expropriação da terra, que comete violências contra o meio ambiente em nome da mineração, e da expropriação do corpo, que mantém as mulheres em comunidades locais em condições de violência sexual, econômica, psicologica, simbólica e cultural (cabnal, 2010).
Referências:
CABNAL, Lorena. Acercamiento a la construcción de la propuesta de pensamiento epistémico de las mujeres indígenas feministas comunitarias de Abya Yala. 2010. In Feminismos Diversos: El Comunitario. Madrid: ACSUR-Las Segovias.
Paredes, Julieta. 2010. Hilando Fino. Feminismo Comunitario. La Paz: Comunida Creando Comunidad.

Comentários