Abordagens Críticas ao Desenvolvimentos
- Isabel Siqueira

- há 16 horas
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As abordagens críticas ao desenvolvimento, de modo geral, são aquelas que questionam o modelo de desenvolvimento hegemônico vigente e que incorpora certos pressupostos modernos ocidentais daquilo que é viver bem, individual, coletivamente e em relação com o meio ambiente (Lang e Mokrani, 2012; Ziai, 2007).
Estes pressupostos foram construídos em compasso com a expansão de ideais capitalistas no pós-Segunda Guerra Mundial (ver “Ajuda Oficial ao Desenvolvimento” e “Desenvolvimento”) e com o estabelecimento das instituições de Bretton Woods – Banco Mundial (inicialmente Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) e Fundo Monetário Internacional (FMI), a partir de 1944 (Milani, 2014; 2018; Ferguson, 1994). Ainda que certamente com variações ao longo das décadas seguintes, é possível dizer que desenvolvimento passa a ser compreendido cada vez mais como sinônimo de modernização e crescimento econômico (Nederveen Pieterse, 2010), preconizando o consumo e, consequentemente, o extrativismo, o uso desenfreado de recursos e de certa maneira normalizando e mesmo fortalecendo desigualdades e violências, como as expropriações e exclusões várias que acompanham a acumulação de capital (Dilger et al, 2016) (ver “Expropriação”, “Capitalismo”, “Neoliberalismo” e “Violência”). O modelo de desenvolvimento que vemos em prática hoje em boa parte do mundo torna impossível, portanto, a sobrevivência de muitos humanos e não-humanos, ou mais-que-humanos (de la Cadena, 2015), que dizer da experiência de uma vida boa e justa.
Em 2025, por exemplo, o Programa de Alimentos das Nações Unidas (WFP, em inglês) indicava que 363 milhões de pessoas estavam sob risco de fome aguda. O Atlas Global de Justiça Ambiental (EjAtlas), por sua vez, informa a existência de 4512 casos de conflito socioambiental reportados no mundo. ¹ Isto em um contexto global em que o “aquecimento global em breve ultrapassará 1,5°C [colocando] a humanidade em uma zona de perigo onde múltiplos pontos de inflexão climática representam riscos catastróficos para bilhões de pessoas” (Lenton et al, 2025). Enquanto isso, a fortuna de bilionários cresceu três vezes mais rapidamente desde 2024 do que nos cinco anos anteriores (ver “Riqueza”). ²
O ponto convergente de crítica das Abordagens Críticas ao Desenvolvimento (ACD) é justamente que esses não são efeitos colaterais do sistema capitalista moderno global. Essas “externalidades” tornam possível que alguns países se “desenvolvam” enquanto outros sofrem impactos negativos desproporcionais; na verdade, esta é a condição do crescimento econômico do Norte global. Estes impactos são componentes essenciais, portanto, do modelo de desenvolvimento hegemônico. O crescimento econômico que leva à expansão das fronteiras extrativistas tanto permite acumulação e consumo de alguns, como contribui para a aceleração das mudanças climáticas que já impactam a todos.
Como prática comum, assim, as ACD mantêm um olhar atento, sempre vigilante para as propostas que buscam qualificar e mitigar os impactos do desenvolvimento hegemônico: vão questionar, por exemplo, se o desenvolvimento sustentável é mesmo mais inclusivo e justo. Há quem diga que o desenvolvimento sustentável é, inclusive, simultaneamente um pleonasmo e um oxímoro: ou o desenvolvimento sempre foi sustentável, porque este é o discurso hegemônico, ou ele nunca foi e nunca será (Latouche, 2009).
Além desse olhar crítico sobre a distribuição espacial dos impactos do desenvolvimento, as ACD também se orientam para uma preocupação transversal com o tempo e as temporalidades. Estas abordagens olham para imaginários de futuros (im)possíveis, ao mesmo tempo em que compreendem, de modo geral, que é preciso teórica e pedagogicamente construir contra-arquivos que disputem nossos passados: é preciso contar outras histórias para criar as possibilidades de outros futuros (Pham e Shilliam, 2016) (ver “Memória”). Essas histórias e visões alternativas estão nas cosmologias de diferentes povos, nas comunidades e territórios marginalizados e em muitos setores da sociedade civil que cotidianamente mobilizam gramáticas de luta comum (Svampa, 2019). Com diferença entre abordagens, as ACD, entendem que é preciso postular saberes desde outros espaços e temporalidades, em muitos casos combatendo a reificação de saberes tidos como técnicos ou especializados.
Assim, pode-se dizer que as ACD compõem um campo crescente de saberes diversos que se voltam para conhecer, promover e implementar modos alternativos de desenvolvimento, com uma orientação comum para a justiça e o combate às desigualdades sistêmicas.
Como campo de saberes, as ACD constroem com o ativismo e a pesquisa avançados por diferentes comunidades e atores do Sul global nas últimas décadas e dialoga com as contribuições de diversas iniciativas existentes, como o grupo Modernidad/Colonialidad, fundado em 1998 (Escobar, 2003); o Grupo Permanente de Trabajo sobre Alternativas al Desarrollo, da Fundação Rosa Luxemburgo; e os diversos coletivos e instituições que representam populações marginalizadas, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), entre outros.³Além disso, claro, dialoga com as heranças da rica produção da teoria cepalina e da teoria da dependência (Cardoso e Faletto, 1970; Santos, 1970; Frank, 1966), buscando justamente avançar na construção de novas proposições teóricas robustas, capazes de oferecer enfrentamento epistemológico, ontológico e político às violências promovidas por uma visão hegemônica de desenvolvimento.
As ACD seguem o percurso extremamente rico e importante desses diálogos anteriores, focando, porém, nos desafios atuais. Algumas dessas conversas foram estabelecidas, por exemplo, em tempos talvez atipicamente otimistas, como o Grupo Permanente de Trabalho sobre Alternativas ao Desenvolvimento, da Fundação Rosa Luxemburgo, criado em 2010, em Quito, Equador. Desde meados da década de 2010, não só vivemos o avanço de ondas conservadoras na América Latina e no mundo, como os avanços tecnológicos no campo da energia e da inteligência artificial, para mencionar só alguns, elevaram exponencialmente o ritmo das mudanças econômicas e sociais. Dessa forma, as ACD buscam renovar o compromisso com a crítica, enquanto pretendem também repensar a maneira como comunicamos conhecimento diante dos desafios colocados e dos abismos políticos que se formaram.
Como se vê, a América Latina tem papel fundamental na contribuição para essa agenda crítica comum e todo o Sul global é ponto de partida para construções que possam seguir “adiando o fim do mundo” (Krenak, 2019).
² https://www.oxfam.org/en/resisting-rule-rich e https://www.oxfam.org/en/press-releases/wealth-largely-absent-imf-tax-guidance-benefiting-rich
³ https://www.rosalux.org.ec/grupo/; https://desarrollo-alternativo.org/ ; https://www.cealdes.co/ ; https://omal.info/alternativas-al-desarrollo/ ; https://conaq.org.br/ . Ver também Pacto EcoSocial e Intercultural del Sur -; Beyond Development – Toward Systemic Emancipatory Transformations.
Referências:
CARDOSO, Fernando Henrique e Enzo FALETTO. Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de intepretação sociológica. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1970.
DE LA CADENA, Marisol (2015) “Uncommoning nature”, e-flux, em http://supercommunity.e flux.com/texts/uncommoning-nature/
DILGER, Gerhard; LANG, Miriam; e PEREIRA FILHO, Jorge (eds) Descolonizar o Imaginário. Debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento (São Paulo: Editora Elefante, 2016.
ESCOBAR, Arturo. “Mundos e conhecimentos de outro modo. O programa de investigação modernidad/colonialidad latinoamericano”. In: Tabula Rasa (1), pg. 51-86. Bogotá: janeiro-dezembro de 2003.
FERGUSON, James. The Anti-Politics Machine. “Development,” Depoliticization and Bureaucratic Power in Lesotho. Minneapolis e London: University of Minnesota Press, 1994.
FRANK, A. G. “The Development of Underdevelopment”. Reprinted in full from Monthly Review (September), 1966.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
LANG, Miriam e MOKRANI, Dunia (eds) Más allá del desarrollo. Quito: Fundación Rosa Luxemburg/Abya Yala - Grupo Permanente de Trabajo sobre Alternativas al Desarrollo, 2012.
LATOUCHE, Serge. Pequeno tratado tio decrescimento sereno. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.
LENTON, T.M et al, The Global Tipping Points Report 2025, University of Exeter: UK, 2025.
MILANI, Carlos R. S. Evolução Histórica da Cooperação Norte-Sul. In: André de Mello e Souza (org.). Repensando a Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Brasília: IPEA, 2014, pp. 33-56.
MILANI, Carlos R. S. Solidariedade e Interesse. Motivações e estratégias na cooperação internacional para o desenvolvimento. Curitiba: Appris, 2018.
NEDERVEEN PIETERSE, Jan. Development Theory. Deconstructions/Reconstructions. London: SAGE Publications, 2010.
PHẠM, Quỳnh N e SHILLIAM, Robbie (eds). Meanings of Bandung: postcolonial orders and decolonial visions. London: Rowman & Littlefield, 2016.
SANTOS, Theotonio dos. 1970. “The Structure of Dependence”. The American Economic Review, vol. 60, n. 2: 231-236
SOLÓN, Pablo (ed.) Alternativas sistêmicas. Bem viver, decrescimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização. São Paulo: Editora Elefante, 2019.
SVAMPA, Maristella. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina. Conflitos Socioambientais, giro ecoterritorial e novas dependências (São Paulo: Editora Elefante, 2019)
ZIAI, Aram (ed). Exploring Post-development: Theory and Practice, Problems and Perspectives. Nova York: Routledge, 2007.

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