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Memória

Andréa Gill
23 de set.
3 min de leitura

A memória, como categoria analítica, traz à tona práticas, conceitos e métodos que fundamentam a construção e reconstrução de narrativas sobre o passado, o presente e o futuro. Nesse sentido, nos alerta para as formas pelas quais as visões do passado impactam diretamente sobre como concebemos o presente e, portanto, como imaginamos os limites e as possibilidades de um futuro.


Considerando a dimensão temporal e histórica das abordagens críticas ao desenvolvimento, a memória exerce um papel central na orientação de perguntas-chave no campo, dentre elas:


Como compreendermos os processos que nos trouxeram ao tempo presente?


Quais perspectivas são incluídas e excluídas do modo como contamos a história e das análises diagnósticas elaboradas com base nesse contexto para intervir nos problemas identificados no campo do desenvolvimento hoje?


De que maneira podemos captar as dinâmicas e os conflitos desenvolvimentistas para além de uma temporalidade linear e de concepções universalistas do desenvolvimento apresentadas nos cânones hegemônicos, produzindo, em seu lugar, um arquivo vivo que respeita a pluralidade de formas de vida em comum?


A importância de disputar a memória no campo das abordagens críticas ao desenvolvimento se dá principalmente pelo fato da exclusão, da marginalização e da desqualificação de sujeitos e saberes do debate sobre o que faz uma sociedade plenamente desenvolvida e a quais custos, bem como da elaboração coletiva de políticas e projetos de sociedade justos, equitativos, prósperos e sustentáveis. Em suma, insere-se na disputa central do campo sobre como definimos o que é o desenvolvimento.


Em contexto brasileiro, faz-se necessário mobilizar a memória como categoria analítica diante do epistemicídio (Carneiro, 2023) em curso responsável pelo aniquilamento de formas de ver e viver no mundo como dimensão epistêmica do genocídio antinegro e anti-indígena, há séculos reatualizado no nosso continente. Conforme ensina Sueli Carneiro (2023, p. 88-89) e interlocutoras dos movimentos afrodiaspóricos, a exploração racial-sexual-capitalista que sustenta o projeto moderno colonial de base escravagista e veio a definir os parâmetros do desenvolvimento e os paradigmas civilizatórios, implica também o não acesso a uma vasta gama de maneiras de conhecer e reconhecer as nossas realidades. Isto é, como conceito que ganha corpo a partir das reivindicações de movimentos sociais pelo direito à memória, justiça e reparação, trata-se das possibilidades de existir da maioria da população brasileira e, por sua vez, mundial.


Sob essa perspectiva, apresenta-se como um caminho para disputar o status do conhecimento, escrito ou oral, que embasa as análises, formulações e avaliações das políticas de desenvolvimento, especialmente por e para quem é negada o acesso às instituições que qualificam e legitimam a história e o saber científico. Instituições estas marcadas pelas forças do patriarcalismo, do elitismo classista, da homofobia, do fundamentalismo religioso e do racismo que Sueli Carneiro (2020, p. 137) nomeia como os pilares da perspectiva universalista e de seus preconceitos supremacistas.


A reconstrução da memória, junto às disputas por reescrever a história passada e presente, nos permite efetivamente incidir sobre os termos por meio dos quais os problemas e as soluções desenvolvimentistas são colocados para o debate público e acadêmico na esfera local, nacional e internacional. Na prática, força uma repolitização do problema de desenvolvimento para além das fórmulas, dos cálculos e das metas vigentes.


Em uma era da hiperprodução de informação, da inteligência artificial e da tecnocracia que permeia o campo, a memória serve como base renovada do discernimento político, histórico e ético.


Referências:


CARNEIRO, Sueli. Dispositivos de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. São Paulo: Editora Zahar, 2023. 


CARNEIRO, Sueli. Escritos de uma vida. São Paulo: Editora Jandaíra, 2020.



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