Neoliberalismo
Neoliberalismo é um dos conceitos mais utilizados e, simultaneamente, um dos menos definidos com rigor nas ciências humanas (Boas e Gans-Morse, 2009). Importado da teoria econômica, o termo difundiu-se nos estudos sociais e políticos a partir dos anos 1980 para descrever diferentes processos globais de privatização e desmonte do Estado de bem-estar, significando “não apenas um modelo de policy, mas um fenômeno político, ideológico, cultural e espacial mais amplo” (Venugopal, 2015, p. 3, tradução nossa). Apesar da abrangência, Rutar (2023, p. 301, tradução nossa), com base em Boas e Gans-Morse (2009), identifica que as principais abordagens críticas associam neoliberalismo a, pelo menos, uma das seguintes características interligadas:
Um conjunto de prescrições ou reformas políticas: “a liberalização do comércio, a privatização de empresas estatais, a estabilização macroeconômica, a redução de subsídios governamentais”, etc;
Um modelo de desenvolvimento: o “esforço consciente” de administradores, empresas e Organizações Internacionais (OIs) para implementar tais reformas no intuito de estimular crescimento econômico;
Uma ideologia: “visão de mundo” que defende princípios de mercado e de autonomia individual “como os meios mais confiáveis” para resolver os problemas sociais;
Um tipo de teoria econômica: escolas de pensamento como “a economia neoclássica padrão, a teoria da escolha pública, a Escola de Chicago”.
Nas Abordagens Críticas ao Desenvolvimento, neoliberalismo é comumente encarado como o modelo econômico difundido pelas potências ocidentais e OIs, sobretudo a partir do Consenso de Washington, via determinadas reformas que carregam certa ideologia. Compartilha-se a leitura de que, impulsionada pela crise do keynesianismo e pela emergência de governos pró-mercado no Chile (Pinochet), EUA (Reagan) e Reino Unido (Thatcher), a ideologia neoliberal passou a dominar as diretrizes do Banco Mundial e do FMI que, através dos Programas de Ajuste Estrutural (SAPs, na sigla em inglês) e reformas correlatas, induziram à desregulamentação e privatização das economias nacionais, especialmente no Sul Global. Como consequência, o desenvolvimento é reduzido à eficiência comercial, o Estado é restrito a um otimizador de mercados, e o progresso é desvinculado de maiores reflexões sobre desigualdades, complexidade cultural, ou satisfação de necessidades básicas (Hill, Wald e Guiney, 2016; Vergara-Camus, 2017; Waeyenberge, 2017).
Algumas autoras consideram o neoliberalismo uma “anulação” do próprio desenvolvimento (Nederveen Pieterse, 2010, p. 26), por abandonar a busca por políticas públicas que aprimorem indicadores econômico-sociais (Hill et al., 2016). Outras leituras, mais próximas do pós-desenvolvimento, enxergam o fenômeno como parte do “legado colonial” do desenvolvimento (Nederveen Pieterse, 2010, p. 24), ao relegar modos de vida não-estritamente comerciais a um estágio “atrasado” do progresso histórico (Blaney e Inayatullah, 2010; Sandbrook, 2011). Transversal a estas abordagens, há um debate crescente sobre a horizontalidade do neoliberalismo, para além dos ajustes top-down dos anos 1980 (Gago, 2015; Cava e Cocco, 2018), e sobre os limites do próprio conceito para descrever a economia política atual face à ascensão da extrema direita (Murray e Overton, 2022; Fortes, 2025). Estas diferentes perspectivas, porém, encontram-se em questionar visões de mundo que não apenas viabilizam as violências da sociedade de mercado (Polanyi, 1949), mas as apresentam como única alternativa possível.
Referências:
BLANEY, David L.; e INAYATULLAH, Naeem. Savage economics: wealth, poverty, and the temporal walls of capitalism. London ; New York: Routledge, 2010. 232 p. (RIPE series in global political economy). ISBN 978-0-415-54847-2.
BOAS, Taylor C.; e GANS-MORSE, Jordan. Neoliberalism: From New Liberal Philosophy to Anti-Liberal Slogan. Studies in Comparative International Development, v. 44, n. 2, p. 137–161, 1 jun. 2009. ISSN 1936-6167. DOI 10.1007/s12116-009-9040-5.
CAVA, Bruno; e COCCO, Giuseppe. Enigma do Disforme: Neoliberalismo e Biopoder no Brasil Global: Neoliberalismo e Biopoder no Brasil Global. Rio de Janeiro: Mauad X, 2018. 152 p. ISBN 978-85-7478-942-2.
FORTES, Felipe. O que o “neoliberalismo” já não explica: sobre cegueiras conceituais, lutas em curso e a necessidade da reinvenção democrática. In: Universidade Nômade Brasil. 9 jun. 2025. Disponível em: https://uninomade.net/o-que-o-neoliberalismo-ja-nao-explica-sobre-cegueiras-conceituais-lutas-em-curso-e-a-necessidade-da-reinvencao-democratica/. Acesso em: 5 mar. 2026.
GAGO, Verônica. LA RAZÓN NEOLIBERAL: ECONOMIAS BARROCAS Y PRAGMÁTICA POPULAR. Madrid: Traficantes de Sueños, 2015. 350 p. ISBN 978-84-943111-8-5.
HILL, Douglas; WALD, Nave; GUINEY, Tess. Development and neoliberalism. In: Handbook of Neoliberalism. Routledge, 2016. 12 p.
MURRAY, Warwick E.; OVERTON, John. Retroliberalism and development. In: The Routledge Handbook of Global Development. [S. l.]: Routledge, 2022. 14 p.
NEDERVEEN PIETERSE, Jan. Development theory: deconstructions/reconstructions. 2nd ed ed. Los Angeles : London: SAGE, 2010. 252 p. (Theory, culture & society). ISBN 978-1-4129-4514-1.
POLANYI, Karl. Our Obsolete Market Mentality. 1949. Disponível em: https://opus4.kobv.de/opus4-Fromm/frontdoor/index/index/docId/18173. Acesso em: 22 set. 2020.
RUTAR, Tibor. What is neoliberalism really? A global analysis of its real-world consequences for development, inequality, and democracy. Social Science Information, v. 62, n. 3, p. 295–322, 1 set. 2023. ISSN 0539-0184. DOI 10.1177/05390184231202950.
SANDBROOK, Richard. Polanyi and Post-neoliberalism in the Global South: Dilemmas of Re-embedding the Economy. New Political Economy, v. 16, n. 4, p. 415–443, 1 set. 2011. ISSN 1356-3467. DOI 10.1080/13563467.2010.504300.
VENUGOPAL, Rajesh. Neoliberalism as concept. Economy and Society, v. 44, n. 2, p. 165–187, 3 abr. 2015. ISSN 0308-5147. DOI 10.1080/03085147.2015.1013356.
VERGARA-CAMUS, Leandro. Peasant alternatives to neoliberalism. In: The Essential Guide to Critical Development Studies. Routledge, 2017. 9 p.
WAEYENBERGE, Elisa Van. The post-Washington Consensus. In: The Essential Guide to Critical Development Studies. Routledge, 2017. 10 p.

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