Pós-colonialidade
O pensamento pós-colonial constitui uma resposta crítica aos efeitos do imperialismo e do colonialismo europeu sobre países do Sul Global que, por longos períodos, sofreram processos de ocupação territorial e dominação externa (SAID, 2007; FANON, 2008a). A pós-colonialidade é uma abordagem teórica que emerge na esteira dos movimentos separatistas e de independência nacional ocorridos em diversos países e territórios colonizados a partir da segunda metade do século XX (BHABHA, 1998; FANON, 2008a). Fortemente influenciada pelo pós-estruturalismo e por sua ênfase nos particularismos históricos de cada sociedade, essa abordagem busca questionar criticamente a visão de mundo eurocêntrica (SAID, 2007; SPIVAK, 2011; BHABHA, 1998), segundo a qual a ciência europeia, assim como seus modos de organização política, social e, sobretudo, cultural, seriam superiores aos demais. Além de estruturar desigualdades globais e criar a figura do “outro” (SAID, 2007; MBEMBE, 2018).
Possui como importantes teóricos: Edward Said (2007), que demonstrou como a visão europeia acerca do Oriente era marcada por concepções culturalmente enviesadas, construídas para justificar a dominação através da justificativa de superioridade europeia e inferioridade do “outro”; Gayatri Spivak (2010), por meio da noção de subalternidade denunciou as estruturas que silenciam os sujeitos colonizados, especialmente mulheres e grupos subalternos; Frantz Fanon (2008), a partir da discussão da dimensão psíquica do racismo, enfatizou o modo como a dominação colonial atinge o próprio sujeito colonizado, produzindo violências que não se limitam ao plano físico, mas que também se expressam de forma simbólica e cultural; Achille Mbembe (2018) que traz o conceito de Necropolítica, em como o poder decide quem pode viver e quem deve morrer, evidenciando a relação entre colonialismo, racismo e violência estatal; e por fim, Homi Bhabha (1998) define o conceito como um espaço de negociação cultural onde identidades coloniais e colonizadas se misturam.
A pós-colonialidade, portanto, configura-se como uma crítica mais geral, de caráter predominantemente teórico, literário e cultural. A linguagem, o discurso e as dimensões simbólicas da dominação colonial adquirem, nesse campo, grande importância e centralidade (SAID, 2007; SPIVAK, 2011; BHABHA, 1998). Além de reconstruir o conceito sobre desenvolvimento a partir de perspectivas locais, subalternas e marginalizadas (CHAKRABARTY, 2000), as abordagens pós-coloniais criam conceitos e promovem deslocamentos teóricos, semânticos ou territoriais que desestabilizam pretensões universalistas, reconfigurando como um campo de disputas epistemológicas e políticas no qual sujeitos históricos antes desconsiderados emergem como atores e a ter agência na definição de seus próprios horizontes de desenvolvimento e transformação social. Ao deslocar o foco analítico para essas mediações, essa corrente não apenas reconstrói o conceito de desenvolvimento (CHAKRABARTY, 2000), mas também redefine os próprios critérios pelos quais o desenvolvimento é avaliado, questionando parâmetros universalizados de progresso, modernização e temporalidade histórica.
Referências:
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
CHAKRABARTY, Dipesh. Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference. Princeton: Princeton University Press, 2000.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de Ruth Rocha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008a.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008b.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Enlances, n. 1, p. 1-24, 1992.
MIGNOLO, Walter. A desobediência epistêmica: o pensamento decolonial e a desconstrução da modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: UFMG, 2010.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Uma crítica à razão pós-colonial. Tradução de Milton Antonio L. de Faria. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

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